Siga-nos

Perfil

Expresso

Ricardo Costa

Um pedido do 10 de Junho

O Presidente acha que estamos numa situação insustentável. O Governo diz que apenas estamos numa situação difícil. Estas duas visões são inconciliáveis no médio prazo. O tempo só vai alargar o fosso entre Belém e São Bento.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Insustentável. As palavras são o que são e o Presidente da República não hesitou em escolher este adjectivo para falar do país no 10 de Junho. O discurso foi próprio do Dia de Portugal e deu para declinar a palavra 'coesão' de todas as maneiras e feitos. As críticas contaram-se pelos dedos de uma mão. Mas o 'insustentável' ficou no ouvido de toda a gente.

O significado de insustentável é simples: algo que não se pode sustentar. Se diz que chegámos a uma situação insustentável é porque acha que Portugal não se pode sustentar, nada mais nada menos. Esta não é uma questão menor. Porque depois de um diagnóstico tão claro, o Presidente da República fica obrigado a explicar o que se pode e deve fazer. E se acha que a receita dos dois PEC do Governo não serve, tem que o dizer.

José Sócrates foi rápido a responder a Cavaco Silva: a nossa situação não é insustentável, é, isso sim, difícil como a de muitos países da zona euro.

A diferença de opiniões de Cavaco e Sócrates começa a ser perigosa. Quando o Presidente e o primeiro-ministro têm visões tão opostas sobre as nossas finanças públicas, só estão a contribuir para que as preocupações sobre Portugal aumentem.

Esta troca de opiniões teve lugar 24 horas depois de Portugal ter colocado 1,5 mil milhões de euros de dívida pública. A operação correu bem porque a procura excedeu a oferta, o que quer dizer que ainda há interessados em nos emprestar dinheiro. Mas o juro cobrado está a chegar a valores incomportáveis. No dia 15 a República Portuguesa faz nova emissão de dívida. Se os juros continuarem a estes níveis começamos a entrar em alerta vermelho.

A opção de José Sócrates está traçada: resistir à turbulência, não mostrar fraqueza ou hesitação e continuar a financiar o país pelos mecanismos habituais. O Governo defende que é preferível pagar juros altos a recorrer ao fundo de emergência europeu. Pagaria juros mais baixos mas dava um sinal de fraqueza com consequências graves.

Não se conhece bem a opinião do Presidente sobre o caminho a seguir. É possível que Cavaco também seja contra o recurso imediato ao fundo de emergência. Mas há uma coisa que é óbvia: o Presidente acha que o país não aguenta muito tempo a financiar-se a estas taxas. E sabe que o juro só baixa se corrigirmos mais depressa a nossa dependência do estrangeiro.

Entre a calma aparente do Governo e o discurso do 'insustentável' um país inteiro assiste entre a espada e a parede. Fica um pedido simples: era bom que Presidente e Governo se entendessem sobre este tema. Só isso.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010