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Ricardo Costa

Importam-se de fazer um só discurso?

Não acredito que alguém perceba o que está a acontecer nas Obras Públicas. Num dia repensa-se tudo, no outro mantém-se tudo. Hoje suspende-se uma obra, amanhã adjudica-se outra. Só temos uma certeza: não há dinheiro.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Não é preciso ter lido muitos livros de gestão ou auto-ajuda para se saber que uma das regras elementares num momento de crise é a da simplicidade no discurso. Num momento de aflição, pânico ou incerteza, as pessoas (todas) olham para quem está ao comando e esperam ouvir alguma coisa que as tranquilize. Seja qual for o discurso (optimista, pessimista, realista, absurdo, etc.), há pelo menos uma regra a cumprir. Só pode haver um discurso.

Não estou a defender que só pode falar uma pessoa. Muito pelo contrário. Estou apenas a defender (pedir?) que quem nos governa combine minimamente o discurso. Mas nas últimas semanas o Governo dedicou-se a baralhar os portugueses que querem saber o que se passa. E ninguém percebeu patavina.

O caso mais bizarro é o das obras públicas. Já sabemos que boa parte do Governo comunga de uma crença (uma espécie de 'fezada') nas obras e que os mais eruditos acham que a receita de Keynes é válida em todas as estações, seja lá qual for o preço da obra em causa e o preço do dinheiro que temos que pedir. Mas ninguém percebeu exactamente o que vai ser adiado ou feito já.

Num dia, Teixeira dos Santos diz que tudo vai ser repensado. No mesmo dia, António Mendonça diz que não há nada a repensar a não ser uns vagos quilómetros no centro do país. No dia seguinte, um secretário de Estado afirma que tudo o que não está adjudicado vai ser reavaliado. Outro secretário de Estado diz logo o contrário. E, depois, Sócrates diz que o Governo não recua um milímetro.

Conclusão? Nenhuma. A única certeza é que trocámos um ministro patusco como Mário Lino por um economista que olha para o efeito multiplicador da dívida como o antivírus da crise. Eu percebo o drama de António Mendonça. Ninguém gosta de ser ministro das Obras Públicas quando não há dinheiro. Mas o ministro deve perceber que o dinheiro acabou mesmo. E que, agora, a sua tarefa é dura mas simples: cortar, adiar, escolher bem o que faz, a que preço e em que condições. E explicar tudo muito bem, sem um pingo de demagogia ou incerteza. Os tempos não estão para isso.

Em vez de porem coletes às cores e capacetes para visitarem túneis, os membros do Governo deviam parar, pensar e explicar-nos tudo. É que nós paramos, pensamos e ouvimo-los. Mas não os percebemos.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010