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Ricardo Costa

Fatal como o destino

Mário Soares defende que o apoio a Manuel Alegre pode ser um erro fatal para José Sócrates e para o PS. Soares esquece que neste momento o destino do PS e do Governo está praticamente traçado e que as presidenciais pouco ou nada podem mudar.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Junho de 2011. Fixe este mês. Com alguma probabilidade daqui a um ano os portugueses estão a eleger um novo Parlamento. Na prática, trata-se do fim de um ciclo natural que se abriu nas últimas legislativas e na emergência de um governo minoritário. O 'cai-não-cai' em que o Governo e a oposição andaram entretidos durante meses só foi interrompido pela urgência da crise financeira. A falta de dinheiro ditou o início das tréguas, a tomada de posse do Presidente da República em Março de 2011 vai marcar o fim dessa paz podre.

Na verdade, o resultado das presidenciais pouco pode interferir no curso de acontecimentos. Para o destino do Governo, pouco interessará saber se Cavaco Silva é reeleito ou se Manuel Alegre o consegue bater numa improvável segunda volta. Quem decide o dia em que o Governo vem abaixo é o PSD e o CDS.

Esse é o erro de raciocínio que vai percorrer todo o debate das eleições presidenciais: a ideia de que mal seja reeleito Cavaco deita abaixo o Governo de Sócrates. Cavaco não precisa de fazer grande coisa porque desta vez o motor de uma dissolução não está instalado no Palácio de Belém. A decisão é de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas. No exacto dia em que acharem que estão em condições de ir a votos e formar um governo maioritário, o novo Presidente não os pode ajudar nem obstruir. Fica a assistir a tudo.

Uma eventual eleição de Manuel Alegre pouco pode fazer contra este calendário. É claro que a vitória de um candidato que tem o apoio do PS e do Bloco (e do PCP numa segunda volta) dá força à esquerda e é um duche de água fria para o centro-direita. Mas a frente de esquerda presidencial é intraduzível num governo.

A marcha destes acontecimentos é quase impossível de parar. Pelo caminho há factores mais importantes do que a escolha presidencial: a actuação do Governo, a resistência de Sócrates, a evolução do desemprego e da economia, a contestação social, a crise internacional, as dificuldades de financiamento da República, o recurso à ajuda monetária da UE e do FMI e um terceiro PEC.

O conjunto destes factores tem uma tendência fortemente negativa para o Governo. Neste momento o PS devia concentrar-se numa reestruturação profunda da máquina e da despesa do Estado. Com isso, tomava iniciativa, ganhava tempo, criava uma imagem de responsabilidade e garantia uma chegada digna às próximas eleições. Soares erra quando diz que apoiar Alegre é fatal para o PS e para Sócrates. O destino do PS não se joga nas presidenciais e está traçado. E o apoio a Alegre era inevitável.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010