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Ricardo Costa

Como perder o sentido de Estado num instante

O acordo selado esta semana é necessário mas injusto e imoral. E deixa os portugueses de pé atrás. Porque o nosso Estado é uma máquina devoradora e porque os nossos políticos já tentam fugir do que acabaram de assinar.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Nem vale a pena discutir se o acordo entre o Governo e o PSD era ou não necessário. Quem tenha tido atenção ao que se passou em Bruxelas percebeu o que ia acontecer. A UE foi obrigada a salvar o euro, abriu as portas do cofre e pôs o BCE a comprar dívida dos Estados no mercado secundário. Esta semana, Portugal perdeu quase todo o poder para Bruxelas. Com a política económica centralizada, a Europa federal vai ser uma consequência natural. A factura política deste mega-resgate chegará um dia. A outra já chegou.

PS e PSD seguiram Bruxelas e trocaram o discurso do read my lips pelo "esqueçam o que eu disse na semana passada". Não tinham outra opção. Mais uns dias de hesitação e não havia dinheiro em Portugal.

Mas a situação nos mercados financeiros não justifica tudo o que nos impõem. A página A4 negociada por Teixeira dos Santos e António Nogueira Leite é demasiado precisa na coluna dos impostos e muito vaga nas linhas da despesa. Essa lista de cortes não passa, no essencial, por medidas estruturais. São opções de "caixa", que terão impacto imediato mas que precisarão de ser tapadas mais tarde.

Teixeira dos Santos, Nogueira Leite, Sócrates e Passos sabem perfeitamente que uma organização com a dimensão do nosso Estado só poderá viver com menos se for reestruturado, moralizado, responsabilizado e, já agora, valorizado. De resto, será sempre o "monstro das bolachas", que agora devora menos um pacote para amanhã se alimentar com bolachas extra como se nada se tivesse passado.

Esta é a primeira razão que deixa qualquer português de pé atrás. Vamos apertar o cinto com medidas temporárias. Mas tudo "cheira" a definitivo.

A segunda razão é o espectáculo que as cúpulas do PS e do PSD deram mal fecharam o acordo. Não quiseram falar lado a lado, o que foi um péssimo sinal para o país. Pior do que isso começaram a empurrar medidas para os braços do outro. Sócrates mostrou claramente que algumas medidas, como a diminuição dos salários dos políticos, não eram ideia dele. Uma coisa inédita para quem acabou de selar um acordo.

Pedro Passos Coelho foi pelo mesmo caminho. Com o "perdoa-me" saiu-se bem no curto prazo. Mas para a história vai ficar como alguém que tentou sair da fotografia depois do flash disparar. O "perdoa-me" vai persegui-lo o resto da vida. Daqui por uns anos será a pergunta de bolso de qualquer jornalista: "não quer pedir desculpa?"

Sócrates e Passos tiveram juízo, mas perderam o sentido de Estado num instante.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010