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Ricardo Costa

Cavaco e a direita

Há uma certa direita que nunca gostou de Cavaco, mas isso nunca o enfraqueceu. Duvido que a histeria provocada pela promulgação do casamento gay faça grande mossa na sua recandidatura.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Parece que a mensagem que o Presidente da República fez quando decidiu promulgar a lei do casamento gay está a "incendiar" alguns sectores da nossa direita. Por mais que me esforce não percebo a exaltação e, sobretudo, não entendo que fins pretende atingir. Aquilo que Cavaco Silva fez era previsível e óbvio, quando se tem em conta a sua actuação como Presidente da República e mesmo como primeiro-ministro.

Cavaco Silva nunca se destacou por ser um porta-voz de correntes ideológicas. Todos sabemos o que ele pensa sobre a sociedade portuguesa e que não gosta dos chamados temas fracturantes. Mas nunca foi nem um motor nem um travão absoluto destas bandeiras. A sua actuação política sempre derivou de ideias económicas claras e de um projecto político para o país que decorre dessas ideias.

A principal alteração que Cavaco Silva introduziu na chegada a Belém não foi política, foi jurídica. Se há alguma marca que fica do primeiro mandato é um claro zelo pelos direitos e limites dos poderes presidenciais. A questão do Estatuto dos Açores, onde o Presidente tinha toda a razão, foi o casus belli do mandato. Questões como as alterações à lei do divórcio ou das uniões de facto tiveram a sua reprovação clara e pouco mais. Achar que nesta altura (final de mandato e em plena crise), Cavaco ia fazer um braço-de-ferro com o Parlamento e o Governo era achar que o Presidente ia contrariar a sua própria natureza.

Muitas vezes, a direita católica, sobretudo a mais urbana e elitista, espera que Cavaco seja aquilo que não é nem nunca foi. E depois criticam-no sem terem razões para isso. A ideia de lançar um candidato "de direita" contra Cavaco é um erro político que, no limite, não o prejudica. Coloca-o, aliás, na sua zona de conforto, mais ao centro.

Nos dez anos em que foi primeiro-ministro, Cavaco sempre teve a oposição de uma direita mais dura ou mais snob que o olhava como não sendo dos seus. Alguém que veio da província e sem currículo para liderar duas maiorias absolutas. "O Independente" e o PP de Manuel Monteiro foram os efeitos mais visíveis. O PP recusou-se, aliás, a escolher entre a candidatura de Jorge Sampaio e a de Cavaco nas presidenciais de 96, com o resultado que se sabe.

A comunicação de Cavaco Silva, misturando o casamento gay e a crise, foi um disparate político e formal. Mas foi um espelho sincero do que ele pensa sobre os dois assuntos. Se a direita acha que o condiciona com esta ameaça está, uma vez mais, enganada. Cavaco não vai mudar uma linha na sua rota.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010