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Política a metro

Os políticos não dizem "queremos ver mais filósofos na televisão!"

Os políticos não dizem "queremos ver mais cientistas na televisão!"

Os políticos não dizem "queremos mais vida na televisão!"

Os políticos dizem "Estamos pouco na televisão!"

Alguns impactos desta atitude revelam-se em actividades exageradamente regulamentadas; política em todas as esquinas; leis para tudo, menos para a inovação, criatividade e talento (que precisam apenas de não serem asfixiados).

A obsessão maior é com "o tempo"; quem usa "o palco televisivo". Porque acham os políticos que basta pisar o palco e deixar-se apanhar por uma câmara para convencer o cidadão. O raciocínio é absurdamente amador nos dias que correm, com uma diversidade e competitividade informativa como nunca existiu no passado; com quantidades massivas de informação disponíveis na Internet; numa era em que toda a gente produz informação e toda a gente a consome ao seu próprio ritmo e uma era em que se desvaneceu o "homem-massa".

A obsessão com "o tempo" instalou-se, como se fizesse parte da idiossincrasia da política portuguesa. O recente relatório da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre o pluralismo político-partidário na RTP revela como esta obsessão contaminou parte significativa do espaço público. O relatório analisa quatro meses de noticiários (de Setembro a Dezembro). Nesse período, por exemplo, o Telejornal dedicou um total de 25 horas e cinco minutos a notícias de âmbito político-partidário. Ou seja, numa média grosseira, cerca de seis horas por mês. Vale a pena olhar para o que acontece noutro país em que se efectua a monitorização quantitativa do pluralismo (são poucos, aliás): em França, de acordo com os dados do regulador local (www.csa.fr), a France 2, concessionária do serviço público, emitiu no mês de Dezembro duas horas e 23 minutos de "notícias políticas". Significa que - continuando a utilizar a mesma simplificação - em Portugal se dedica três vezes mais espaço à política do que em França.

Poderia isto significar que a vida pública é mais transparente, eficaz e promissora. Mas o que se verifica é que muita gente ainda acha pouco.

José Alberto Carvalho