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A compulsão

Se fosse virtude, andaria pelo meio, como convém. José Sócrates a fumar num avião não será tão grave e apocalíptico como fazem crer esganiçadas vozes em choque. Mas não é, definitivamente, matéria menor que se arrume com um encolher de ombros.

A grande questão é, sempre, a do sujeito e do cargo. Ou de como os sujeitos devem compreender que o seu cargo pode trazer vantagens e desvantagens. Mas traz sempre responsabilidades. Foi sob o domínio do seu Governo que o país viu aprovada (finalmente) a lei que protege os não-fumadores. Repare-se que não escrevo a lei antifumadores, porque a verdade é que ninguém anda de espada em punho pelas ruas para os apanhar.

Já aqui escrevi contra esse discurso medíocre das pobres vítimas perseguidas que já não podem incomodar os outros.

A questão é que o cidadão Sócrates, como muitos membros do Governo, como muitos deputados da nação, está ainda em negação quanto à lei que o primeiro-ministro mandou (e bem) aprovar. Por esse mundo fora, em escândalos certamente de outra dimensão, não faltam políticos que abandonaram de cócoras o poder, porque pregavam a moral e atraiçoavam a esposa, porque gritavam que é preciso travar a juventude que anda pelos caminhos da perdição... mas são apanhados afinal, versão foto ou vídeo, ajoelhados e lânguidos, aos pés de uma dominadora de seios fartos apertados no corpete de cabedal. Sim, o sexo ainda faz cair gente, o tabaco não tem essa força. Descanse pois o primeiro-ministro que ninguém no seu perfeito juízo verá aqui matéria que abane governos.

Mas muita gente verá (e bem) que o político que chefia o Governo é mais fraco que o cidadão compulsivo. Eu não me importo minimamente que Sócrates fume. Mas causa-me tristeza uma ansiedade que não consegue suportar meia dúzia de horas de abstinência.

Entre ficar mal na foto e aguentar, estóico como um bom líder, Sócrates preferiu dar largas ao seu impulso. E este, sim, é um tipo de fumo que nos incomoda, porque pressentimos o risco de ver definida uma personalidade e uma postura.

Rodrigo Guedes de Carvalho