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Expresso

Pedro Sousa

Poder... Procura-se

O medo reverencial com que se fala da vontade de poder é perturbador. À semelhança do assunto dinheiro, o pudor com que se oculta a vontade de poder é paralisante. Aceita-se com naturalidade que a vida não faz sentido sem sonhos e projectos, no entanto não se aceita a vontade de poder como sentimento genuíno de querer fazer algo.

Por razões históricas e de educação é de muito "bom tom" declarar desprendimento dos bens materiais e de autoridade, sendo raras as pessoas que afirmam abertamente a vontade de poder.

É um erro, pois, o poder permite defender causas correndo-se, contudo, o risco de as concretizar.

Sem a busca de poder é inconsequente criticar, uma vez que a possibilidade de concretização de ideias e de alternativas não existe, o que permite toda e qualquer variação sobre um e todos os temas.

Esta situação para além "alimentar" a arte de mal dizer gera igualmente um sentimento geral de desconfiança, pois ninguém acredita nesta falta de ambição colectiva, em especial, porque mesmo que inconscientemente todos ambicionam poder... fazer.

Assume-se, assim, que os pares ocultam igualmente essa sede, gerando um movimento geral de desconfiança extremamente imobilizante.

A análise do mérito de uma nova ideia é sempre precedida de um estudo meticuloso de possíveis e inconfessáveis interesses ocultos. Na maior parte dos casos, uma verdadeira perda de tempo... porque existem ideias admiráveis promovidas por quem se move sem interesses escusos.

Ter poder é bom, pois permite realizar o que se entende como justo. Naturalmente, que acarreta a responsabilidade que nasce com a possibilidade de concretização e permite avaliar a diferença entre a teoria e a prática.

E, ainda nos resta a vantagem de vivermos num Estado democrático, no qual o poder está à nossa disposição e disponível a todos os níveis, desde a intervenção cívica até ao acto de governação.

Pedro Sousa, Professor Universitário na FCT/UNL e Director de Inovação da Holos