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Expresso

Paulo Querido

Zune: quanto pesa uma marca?

O Zune poderá não ser o melhor, nem o mais bonito, leitor de mp3 do mercado –  mas a Microsoft é especialista em ganhar rios de dinheiro com produtos medianos.

 

O meu artigo anterior, Zune: a largarta da maçã, levantou uma polémica nem sempre bem-educada e nem sempre interessante ao nível dos argumentos, mas sem dúvida reveladora das paixões e ódios que o mundo das marcas sempre desperta. A tecnologia não é excepção, pelo contrário.

 

Um pouco de história não fará mal a ninguém e permitirá perceber porque é efectivamente possível a Microsoft conquistar à Apple uma apetitosa fatia do mercado de leitores de media. Mais que possível: é de contar com isso.

 

Zut! Estamos em 1994. Marc Andreessen faz uma pipa de massa com o Netscape, o primeiro browser comercial. Bill Gates, até aí distraído, um dia acorda e avisa os empregados acerca da Internet. Ou se lhe juntava, ou a empresa ia pelo cano. Tinha toda a razão. No ano seguinte, 1995, lançou integrado no Windows 95 o browser Internet Explorer, então como agora um pedaço muito mau de código, que dá aos utilizadores mais problemas que soluções.

 

Mas o IE é da Microsoft. Que usou a sua força para o implantar. Sem hesitações e recorrendo a todos os truques, mesmo alguns ilegais como abuso da posição dominante (foi condenada anos mais tarde). De uma quota de zero por cento em 1995, o Internet Explorer tornou-se no número 1 algures em 1999 – quatro anos volvidos. Em 2002 tinha uma quota de utilização superior a 95 por cento.

 

Zut! Estamos em 2001 e o mercado dos jogos é dominado a três pela Sony, Nintendo e Sega. Em Novembro a Microsoft aparece com uma consola em tom verde (pormenor fundamental, consta), a XBox. É gozada alarvemente: como é que uma empresa de software que o único hardware que produziu, e por terceiros, foi um rato, pensa que pode roubar quota aos sabichões japoneses?!? A XBox é lançada no Japão e na Europa somente em 2002. Mas quatro anos volvidos tem 15 por cento de quota nas consolas, uma posição única no software (jogos), controlo sobre o marketplace onde todos os jogadores e produtores de jogos e derivados vão querer estar no futuro, e os analistas a preverem a queda de 20 por cento da quota da Sony.

 

Zut! Estamos em 1988 e o Excel, uma folha de cálculo de segunda qualidade mas com a chancela Microsoft ultrapassa as vendas do Querido e Venerável Líder Lotus 1-2-3. Zut! Zut! Zut!

 

Zut! Estamos em 15 de Setembro de 2006 e em conferência de Imprensa a Microsoft anuncia o Zune. Não é mais uma das inúmeras jogadas de vaporware com que a empresa, em especial desde que liderada pelo desnorteado Steve Ballmer, se mantém no noticiário quando não tem nada para mostrar. É um projecto real. Mais que projecto: é um produto real. Uma encomenda à Toshiba. É um leitor de media competente. Vai ter a marca Microsoft, um design decente, características técnicas interessantes, uma força de vendas brutal, integração directa em mais de 90 por cento dos computadores domésticos e portáteis existentes. Ah, não esquecer uma versão na cor castanha. Que devo eu escrever? Que o iPod rula* e a Mickey$oft** stinx***, iPod world domination?



*calão nerd para domina; do inglês to rule

** designação da Microsoft nos tecno-aerópagos quando se quer denegrir a empresa

*** corruptela gráfica do inglês stink, cheirar mal

 

Paulo Querido

Jornalista