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Expresso

Paulo Querido

Zune: a lagarta da maçã

Poderá um produto saído da cinzenta Microsoft alguma vez bater a beleza, simplicidade e "coolness" da menina dos olhos da Apple, o iPod? Hum. Parece que sim.

 

Como já referi aqui anteriormente (ver Jogos: o futuro da Microsoft e A Microsoft e o ciclo de mudança), desde que foi depositada pelo seu principal fundador nas mãos do "herdeiro" Ray Ozzie, a Microsoft está a mudar a passos cada vez maiores. Permanecem dúvidas sobre se a mudança é realmente possível e apostas sobre se Ozzie aguentará a pressão (tem inimigos entre o painel de executivos que com ele ao leme perde dinheiro e sobretudo poder dentro da instituição). Mas as primeiras vão-se esfumando. E as segundas... Ozzie tem três décadas de experiência de liderança – mais do que de vida têm alguns dos candidatos a inimigos.

 

O principal problema da Microsoft é o seu tamanho. Não se diz a 71.553 pessoas (número de Julho) que trabalharam desde sempre num conceito de software proprietário embalado numa caixa para vender por uma exorbitância que agora vão fazer software ubíquo, fornecido pela web de borla ou por escassos dólares, e, horror dos horrores!, gastar uma pipa de massa em datacenters com milhares de servidores para as empresas e as pessoas alojarem os seus conteúdos GRATUITAMENTE!

 

Mas é mais ou menos isto que Ozzie está a dizer-lhes. E não é por birra ou "estilo pessoal". Olhemos os principais sectores do mercado actual da informática de consumo e serviços Internet.

 

Telefones e PDAs. Líder? BlackBerry.

Fotografia. Líderes? Picasa, iPhoto e Photoshop (Adobe).

Portais. Líder? Yahoo.

O explosivo social netwoking. Líder? MySpace.

Vídeo popular. Líder? YouTube.

Pesquisa. Líder? Google.

Leitores de música. Líder? Apple.

 

Destes sete sectores principais (definidos pela revista Wired) a Microsoft tem entradas em seis. O Windows Mobile corre atrás do BlackBerry, o Digital Image Suite sonha um dia ter algum mercado na fotografia, o MSN é um portal de terceira categoria, um alojador de vídeo sem quota e como motor de pesquisa responde a menos de dois por cento das pesquisas mundiais.

 

Está a fazer flores no mercado dos jogos. A consola XBox360 é uma maravilha e os conceitos de negócio a ela associados vão proporcionar, espera-se, uma transição relativamente pacífica da tesouraria para a época em que os sistemas operativos e os pacotes de escritório, hoje o core-business da empresa, vão ser oferecidos, para não dizer pagos ao cliente ainda por cima.

 

Surpreendeu no campo do software online – aliás, a razão pela qual Gates e Ballmer tinham "comprado" Ozzie há dois anos.

 

Agora, prepara um golpe de mestre. Vai correr atrás do prejuízo no mercado da música, mas em grande. A Apple começa a dar sinais claros de nervosismo à medida que se vão sabendo detalhes do Zune – o leitor portátil da marca Microsoft, a colocar à venda nos Estados Unidos no próximo dia 14 de Novembro ao módico preço de 249,99 dólares (196,7 euros).

 

Como? Afrontar a Apple?!? A Microsoft, que no comboio para o design sai sempre na estação "desastre", quer ameaçar o imbatível iPod, essa maravilha da tecnologia e da imagem?

 

Se olharmos as características do Toshiba recauchutado que vai ser vendido como Zune, as perguntas passam a fazer todo o sentido. Um disco de 30 GB é bom. O ecran é um terço maior que o do iPod. Tem rádio (o iPod não). Tem conectividade Wi-Fi, permitindo a partilha directa de músicas no autocarro da escola ou no centro comercial (o iPod não). É apenas ligeiramente mais pesado, ligeiramente maior, e ligeiramente menos bonito que o iPod (ler Mike Elgan na Computerworld).

 

Há mais razões para acreditar que o Zune pode facilmente triunfar onde muitos concorrentes falharam: a médio prazo, tirar o iPod do seu impante primeiro lugar. Tem aceitação viral na blogosfera, hoje uma força de opinião ditadora do sucesso e fracasso comerciais (menos do que políticos, ao contrário do que mentem alguns). Tem as lições aprendidas, a vantagem de ser o número dois. E não pode ser tratada por Steve Jobs como mais uma wannabee: a mesma força que lhe tem valido processos por abuso de posição dominante continua a servir para impor produtos. Não faz revoluções, mas vende produtos.

 

Paulo Querido

Jornalista