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Paulo Querido

Segurança no Vista: poderemos confiar na promessa de Gates?

Para lançar a última versão do Windows, o Vista, o fundador da Microsoft prometeu "um sistema operativo mais seguro que qualquer outro". Tendo em conta o deplorável passado da empresa nesta matéria e a existência de diversos concorrentes tidos por seguros, a questão é inevitável: até que ponto poderemos confiar nesta promessa de Bill Gates?

O fundador veio dar a cara ao lançamento do Windows Vista um tanto surpreendentemente, uma vez que o CEO da Microsoft é Steve Ballmer e o seu sucessor pós-Ballmer já foi designado. A explicação não está nos méritos comunicacionais de Gates (nem nos anedóticos deméritos de Ballmer). A explicação está aqui: esta afigura-se como a última oportunidade para vender um sistema operativo para computadores e vale tudo para explorar o filão até ao fim, desde preços absolutamente extravagantes até à prática recorrente de promessas não cumpridas.

Não é a primeira vez que Bill Gates promete segurança. Se é ou não a última, é cedo para descortinar (assim de repente eu diria que não). Em 1997, por exemplo, prometeu "muito excitadamente" aos accionistas "trazer para a Microsoft especialistas de classe mundial para áreas como as redes e a segurança" (link). 1998 seria, prometeu Gates, o ano da redução da complexidade e do TCO, total cost of ownership. Os accionistas aplaudem qualquer discurso desde que o CEO cumpra a função de os enriquecer, e nisso Gates nunca se fez rogado.

Mas do ponto de vista do consumidor dificilmente se poderá dizer que os objectivos tenham sido atingidos. E os especialistas de classe mundial em segurança estarão em muitas empresas (e no basfond) mas não na Microsoft, que ao longo dos anos continuou a vender os produtos mais problemáticos da indústria informática.

Em Outubro de 2001, numa Nova Iorque cheia de vontade de recuperar do trauma do 11 de Setembro, o mayor Rudolph Giulliani juntou-se na Times Square a um Bill Gates vindo da bolsa, onde tocara o mítico sino de abertura de sessão: estava oficialmente lançado o Windows XP, numas festividades que duraram vários dias ao longo de todo o mundo, fazendo empalidecer o actual launching do Vista.

O XP representava uma ruptura com os antepassados: finalmente, o Windows era um sistema operativo, não mais o ambiente gráfico de utilizador em cima do sistema MS-DOS. É até hoje o produto mais robusto da Microsoft, quase fazendo esquecer os famosos blue screen of death (BSOD). Durou cinco anos até ser substituído – um recorde da Microsoft.

A promessa da segurança diluiu-se entre as outras da época. A Microsoft ainda se dava ao luxo de desprezar os críticos que já anteviam o descalabro dos anos seguintes, com milhares de vírus e ataques que exploraram todas e cada uma das centenas de falhas de segurança, corrigidas em sucessivos patches oficiais e dois service pack.

Foram precisos 20 meses para Bill Gates vir prometer melhor segurança. Fazendo tábua rasa de uma legião de peritos em segurança que ao longo de pelo menos uma década vinham apontando o dedo a cada um dos célebres bugs dos produtos Microsoft, proferiu em Janeiro de 2003 a espantosa afirmação: "novos riscos de segurança emergiram numa escala que poucos na nossa indústria puderam antecipar em toda a sua extensão" (fonte: CBS). Num e-mail então destinado, tal como as actuais "entrevistas" promocionais do Vista, a convencer os consumidores de que o sistema operativo é seguro, referiu que a indústria teria de fazer "melhorias significativas" (para resolver os problemas criados pelo desleixado software da Microsoft, bem entendido). "A Microsoft tem a responsabilidade de ajudar os seus clientes [...] de forma a não mais terem de escolher entre segurança e usabilidade".

Dê Gates, o marketing da Microsoft e a "boa imprensa" as voltas que derem, a verdade permanece: os seus sistemas operativos e os pacotes de produtividade nunca foram parte da solução, nem que fosse a pagar, foram sempre parte do problema – mesmo a pagar. Com o Vista, um preço estupidamente caro. Em mais uma promessa sua, acredita quem quer acreditar.

PS: antes de apresentarem a teoria de que o Windows é mais problemático apenas porque é o mais usado, bem como as adjacentes, é recomendada a leitura de, entre outros, este relatório: Security Report: Windows vs Linux. Outra leitura interessante, esta destinada ao mercado empresarial: A Cost Analysis of Windows Vista Content Protection.

Paulo Querido, jornalista