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Expresso

Paulo Querido

Queremos um desktop mais ergonómico

A metáfora da secretária enquanto plano de trabalho no ecrã do computador está a ficar velha. Propostas actuais prometem um desktop mais ergonómico, onde empilhamos os ficheiros e objectos de forma natural e sem a rigidez do file system. E por vezes vêm de onde menos se esperaria. No caso do BumTop Prototype (link), veio de uma simples tese de mestrado. "Enriching the Desktop Metaphor with Physics, Piles and the Pen", assim se chama o trabalho de Anand Agarawala para o Department of Computer Science da Universidade de Toronto, motivou depois a construção de um protótipo e o vídeo de apresentação deste foi uma sensação em toda a web ao longo da semana. Uma tese que começa com um lugar comum - a frase atribuída a Pablo Picasso: os computadores são inúteis, só nos podem fornecer respostas - mas depois se abalança a destruir o que tomamos por adquirido: o nosso ambiente de trabalho. "A nossa visão para o interface do desktop", escreve Agarawala, "é recapturar a riqueza e a expressividade que se encontram nas secretárias das pessoas na vida real". O desktop não mudou desde a sua concepção em 1981 nos laboratórios da Xerox: apenas ficou maior - e mais pequeno, com a introdução dos aparelhos portáteis como os PDA. E apesar da metáfora na realidade pouco se parece com as secretárias reais. Mesmo os mais modernos interfaces são em regra austeros, reflectindo as limitações dos computadores de há duas décadas.
 
Ora, o protótipo de GUI (graphical user interface) proposto por Agarawala e outro estudante do departamento, Ravin Balakrishnan, promete a conciliação com a ergonomia dos átomos. O princípio do empilhamento é, talvez, o aspecto mais emblemático da aproximação (reproduzir vídeo abaixo). Os "truques" de movimento de rato (ou caneta) para empilhar os documentos e objectos e movê-los (e até pendurá-los!) de um lado da "secretária" são bem esgalhados. O problema, dizem os críticos, está exactamente aí: a possibilidade de reproduzir no PC a desorganização típica de uma secretária?
 
Mas a apresentação não deixa ninguém indiferente. A indústria excitou-se com a possibilidade de comercialização do sistema (a patente está em análise) e os "nerds" dividiram-se nas apreciações, exaltando os prós e os contras do conceito. O que escapou à esmagadora maioria foi que, afinal, havia outro protótipo de GUI muito parecido com este: o Piles, que a Apple experimentou tendo patenteado o conceito de "montinhos" (stacks) de ficheiros (ver: demonstração interactiva e descrição do sistema).
 
Guerras de patentes à parte, como comentava um leitor do Digg, " se houver café virtual para entornar na secretária, compro".

Paulo Querido

Jornalista