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Expresso

Paulo Querido

Porque não dispara a web no telemóvel

Não há escassez de "conteúdos" para telemóvel e portáteis de pequena dimensão. Mas ninguém os quer e um mercado dos mais prometidos está parado. De quem é a culpa?

"Para a indústria móvel, esperar que as pessoas usem a net através dos seus telefones tem sido esperar por um autocarro que nunca mais vem", foi a feliz expressão usada pelo analista da BBC Dan Simmons para abrir o seu artigo "os móveis colocam a web nas suas mãos". Embora um largo número de telemóveis possam aceder à Internet, sobretudo depois do lançamento dos serviços da terceira geração (3G) que permitem velocidades confortáveis, superiores até a alguma da oferta mais barata de ADSL, apenas um décimo dos europeus usa os seus aparelhos com essa finalidade. A situação noutros países é mais ou menos parecida.

Mas se existe a tecnologia e os conteúdos estão lá, porque não dispara a web no telemóvel? Será um típico PEACEOT (Problema Entre A Cadeira E O Teclado, isto é, o factor humano)? Ou é outra coisa?

Eu diria que é outra coisa. Há uma desadequação, ou melhor dizendo, há duas desadequações neste nicho de mercado. Uma diz respeito aos aparelhos, a outra à abordagem aos consumidores por parte da indústria.

Os aparelhos 3G começaram mal. Desajeitados, eram os patinhos feios nas prateleiras do glamour tecnológico. Só agora começam a aparecer aparelhos adequados.

A abordagem foi errada. Eu, por exemplo, devia ser um fanático utilizador da net móvel: tenho um aparelho capaz (Sony Ericsson P800 dos primeiros, já a precisar da reforma) e a minha vida profissional e boa parte dos tempos de lazer são passadas online. Instalei inclusive algum software que me permite realizar operações técnicas no meu servidor e claro que criei logo uma conta de correio para utilizar no P800. Mas a verdade é que só em casos pontuais, de extrema grande necessidade, recorri ao serviço.

Porquê? No meu caso, por achar demasiado caro. É a segunda desarticulação no seu pior. A indústria esquece uma lei fundamental: aquilo que resulta numas condições não resulta noutras. Na voz os operadores não precisaram de fazer nada além de proporcionar o serviço: a vontade do público encarregou-se do sucesso. A necessidade e sobretudo a vaidade são de tal ordem que pagamos o que for preciso (e temos pago caríssimo) pelo privilégio de telefonar do deserto, em roaming, para esclarecer um detalhe sobre a lista do supermercado com a empregada.

Mas nos dados isto não se aplica. Há alguma necessidade, mas não é alargada. Sobretudo, o apelo da vanitas não está lá. Pelo que o consumidor tende a usar apenas se considerar o preço justo. Há poucos meses tive de recorrer amiúde à minha placa 3G e ao serviço da Vodafone. Se não me importo muito de pagar para ter acesso no meio do Alentejo profundo, já fico furioso quando, noutro país europeu, me é cobrada uma taxa injustificável, sob a forma de roaming. Roaming dentro da mesma rede? Os consumidores já não são nem parvos, nem passivos. Esta semana viajo de novo e levo a placa – mas não me apanham outra vez 100 euros de "imposto de roaming": em Bruxelas o que não falta são quiosques Internet.

Acresce que a técnica de encher chouriços, que tem sido a mais comum por parte destes comerciantes de equipamento, não leva a lado nenhum. Não basta encher a rede de "conteúdos". É preciso dar às pessoas a informação que elas querem, quando e onde precisam e no formato mais adequado. Ninguém ainda acertou na complexa fórmula.

Paulo Querido

Jornalista