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Expresso

Paulo Querido

Os perigos do abandono da privacidade

Nos EUA, a AOL publicou o histórico das pesquisas ao longo de três meses. Resultado: 658 mil clientes seus viram os seus dados pessoais expostos. Em Portugal a PJ gastou meio milhão de euros em sistemas de espionagem.

 

A questão aqui não é o combate ao terrorismo. Embora pudesse ser: os resultados são muito fracos até ver, os terroristas estão a conseguir o seu objectivo, que é manter uma civilização aterrorizada e paranóica. Mas fico apenas por um dos seus sub-produtos: como a entrega do direito à privacidade do indivíduo está a potenciar a criminalidade informática e a tornar cada vez mais caro e difícil o seu combate.

 

O caso da AOL é exemplar. A empresa agiu bem intencionada, querendo ajudar os cientistas da pesquisa ao libertar dados estatísticos sobre o que as pessoas procuram na web. Só que apagou mal os traços pessoais e 658 mil clientes seus ficaram relativamente expostos. Relativamente: como no caso da aviação pós-ataque abortado, com emergências diárias e voos parados porque um cidadão de pele escura comprou bilhete, a paranóia reina.

 

Apesar de o abuso por empresas sedentas de boa demografia online (um bem precioso à medida que as pessoas desertam da televisão) ser muito mais de temer que um criminoso usar a identidade de um dos clientes da AOL, a verdade é que as reacções levaram a empresa a despedir sumariamente Maureen Govern, a sua chief technology officer, e a pedir desculpas públicas.

 

O caso da Polícia Judiciária, lamento ter de o dizer, é mais grave. O equipamento comprado a uma empresa israelita permitirá, segundo a PJ, combater mais eficazmente o cibercrime, pois permitirá "escutar" conversas no MSN e interceptar "e-mails". Custa 500 mil euros. Não diz a PJ quanto terá de gastar a seguir para conseguir efectivamente interceptar alguma coisa com aquilo: a menos que esteja localizado num ponto nevrálgico, não interceptará nada. Não diz a PJ como poderá combater o "phishing", o mais grave crime online nos tempos que correm.

 

Uma dica? O equipamento anunciado é inútil para combater o "phishing". Mais pistas para os leitores, a direcção da Polícia Judiciária e o ministro que aprovou a compra: "Esta coisa só pode ser eficaz em duas frentes, na criação de uma percepção nacional de que a PJ está em cima do acontecimento do e-crime, e na captura do peixe miúdo do ignorante que foi convidar a miúda de 16 anos para ir jantar fora pelo MSN", diz Celso Martinho, o director técnico do Sapo.

 

"Quanto a escutar as conversas no skype, boa sorte: é só quebrarem o protocolo de cifragem usado (e que é anunciado em voz alta no site, logo o atrasado que usou este argumento devia ser despedido)", diz Pedro Figueiredo, informático português actualmente em Londres.

 

E por aqui me fico, consciente de que a causa da privacidade está perdida e que isso não é o pior: o pior é que vai sendo perdida a troco de nada.

 

Paulo Querido

Jornalista