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Expresso

Paulo Querido

O serôdio triunfo do shareware

Mais antigo que a própria web, o shareware era simples: experimente antes de comprar. O conceito económico está a ser recuperado pelos big guns, a quem o mercado começa a escapar. Da Microsoft à Adobe à Sun, a febre de oferecer serviços está a subir.

Na verdade o shareware é anterior à web e à proliferação da Internet: no final dos anos 80 já circulava pelo mundo software que os autores colocavam à disposição, embora condicionada. Dezenas, centenas de programas hoje comerciais ou integrados em sistemas operativos (a Microsoft foi comprando diversas software houses) tornaram-se conhecidos graças a essa forma de distribuição. Vulgarmente, um shareware é um programa "cortado" através de uma limitação temporal (funciona por 30 ou 45 dias) ou de funcionalidades desactivadas; uma vez testado e verificado, se agrada ou resolve, então compra-se ou remunera-se o autor com um donativo.

O shareware consiste portanto em dar, ou adiantar, um serviço. Como tal, foi vilipendiado pela indústria apostada em triunfar no mundo do software proprietário e monolítico. Pelo que não deixa de ser curioso assistir agora à adopção de um modelo económico que é um clone do shareware: oferecer os serviços na perspectiva de obter a remuneração vendendo funcionalidades extra catálogo, ou usando noutros contextos a informação proporcionada pelos utilizadores (testar um produto, detectar comportamentos que podem ser transpostos para outro lado com lucro).

A Microsoft é uma das empresas que estrategicamente passou a oferecer algo aos utilizadores do seu Office Live. Dá que pensar, como uma empresa passa de um modelo de negócio totalmente fechado (o Office é uma verdadeira cash-cow)para o seu oposto. Mas pensaremos nisso noutra ocasião. O que oferece a Microsoft? O domínio. Em vez de pagar para registar a sua empresalucrativa.com, a Microsoft oferece-lhe o registo e ainda o alojamento das suas aplicações e dados. Passa a ter maior controlo sobre os domínios (oficializou-se como domain registar), é mais fácil gerir os dados e as relações e – claro – é uma boa operação de marketing.

Outra multinacional milionária a abrir-se a estes modelos económicos alternativos é a Sun, que passa a distribuir o código fonte Java ao abrigo de uma licença open-source. A Java.net é a plataforma onde se reúnem programadores e projectos. A linguagem Java é usada em muitas aplicações web, de que as declarações electrónicas nas Finanças portuguesas são um exemplo próximo, mas também em telemóveis. Abrir o código é vital para assegurar a continuidade num mercado com fortes rivais em busca do seu quinhão.

Menos previsível que a Sun, que já vinha sendo falada há algum tempo, foi a adopção da partilha pela Adobe, que disponibiliza o código do Flash Player ao abrigo de uma licença open-source. O novo projecto, Tamarin, resulta de uma parceria com a Mozilla, organização sem fins lucrativos que é a sede do browser Firefox e do leitor de correio Thunderbird.

Paulo Querido

jornalista