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Expresso

Paulo Querido

O império do spam

É um mercado de valor incalculável. Hoje, 95 por cento do correio electrónico é lixo comercial. Uma investigação de rotina expôs a complexidade de uma rede de venda online de fármacos com 1.500 websites.

 

O spam é um caso de estudo sobre os efeitos a médio e longo prazo de "políticas" pensadas em função de interesses de curto prazo. Há dez anos, quando se começou a legislar a matéria, pareceu aos eleitos dos dois lados do Atlântico que era simplesmente uma questão de opt-in ou opt-out e o cidadão teria escolha em qualquer dos casos. Quem sabia um pouco mais do que efectivamente se estava a tratar não abriu o bico, caso dos lóbistas, ou não foi ouvido, caso dos defensores dos direitos individuais, essa raça cuja finalidade é fazer a vida negra aos homens de negócios e que tem a cobertura, quando não mesmo a conivência, da outra raça responsável pelos males do mundo em geral e da economia em particular: os jornalistas.

 

Uma década depois estão bem à vista os resultados da ingenuidade dos políticos e do oportunismo da indústria do marketing. 19 em cada 20 mensagens de correio electrónico são o lixo que corrói o sistema, implica meios desmesurados para lidar com o gigantismo da matéria, e custa ao mundo algo como 60 mil milhões de euros anuais – ou talvez o dobro, ninguém sabe ao certo. Tudo depende do que se contabiliza. Se lhe metermos as horas que cada um de nós desperdiça todos os meses a apagar mensagens, o primeiro cálculo fica curto.

 

O spam já deixou de ser notícia, de tal forma entrou nos nossos hábitos. É admirável: aceitamos pacificamente este desperdício de recursos em nome não se sabe do quê. Não é, de todo, em nome do comércio legítimo, do marketing e da publicidade: só um doido arrisca hoje meter o nome do seu negócio em mailing-lists duvidosas e mesmo as "boas" comportam um elevado grau de risco. A indústria que mais fez por tornar as leis brandas foi, ironicamente, a primeira vítima da sub-regulação das mensagens promocionais por correio electrónico.

 

Uma vez por outra, como esta semana sucedeu, surge um caso que nos recorda a dimensão catastrófica do spam. Uma investigação de rotina noticiada por Mark Ward, correspondente de tecnologia da BBC levantou o véu sobre um império de spam de escala mundial e grande complexidade criminal. Mais de 100 milhões de e-mails enviados em duas semanas a partir de 100 mil computadores assaltados em 119 países. As mensagens usavam textos de Tolkien para enganar os filtros de spam (fazendo parecer o texto legítimo) e promoviam uma rede de 1.500 websites de "falsas" lojas farmacêuticas que vendiam comprimidos enviados de um armazém na Índia. Nalguns casos os spammers deram-se ao trabalho de forjar identidades, currículos académicos e donos para os websites, no intuito de lhes emprestar autenticidade.

 

A complexidade e sofisticação da rede criminosa fascinaram os investigadores. A mim fascina-me a incredulidade humana. Não a do incauto que "clica" num e-mail nitidamente suspeito, mas de quem acreditou (acredita) que era (é) uma questão de opt-in ou opt-out.

 

Paulo Querido

Jornalista