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Paulo Querido

O cerne do problema da edição online do DN e não só

A propósito da destituição das Direcções do Diário de Notícias e do 24 Horas, do grupo Joaquim Oliveira, falou-se sobre a pobreza da edição online do DN (na realidade o tema já vinha de trás, mas ganhou outra pertinência). Cabe-me dizer duas ou três coisas sobre isso.

Primeiro, não acho que seja assim tão problemática ou pobre. A edição online do DN cumpre, de resto, algumas das boas práticas, como por exemplo URI legíveis e "amigos" dos motores de pesquisa. É o único com um sistema editorial preparado para isto (no dia em que, no Expresso online, tentei usar URI amigáveis, o sistema pendurou e tive de desistir).

Segundo, por comparação com o Público (e outros jornais que não são da mesma guerra) há efectivamente uma pobreza. O DN não "pensa" online nem aposta no meio. Limita-se a despejar a edição papel em bits apresentados com profissionalismo pela equipa do Celso Martinho.

Terceiro, não procurem o problema no Diário de Notícias. Tal como o problema do site da SIC não está na SIC. Tal como o problema do site da TVI (mais sobre isto um dia destes: aquela estação condena os internautas seus fãs à escuridão completa, não lhes dando sequer um e-mail para dizerem de sua justiça ou fazerem pedidos; é um escândalo, que estou a reunir num dossier pungente sobre a miséria humana e a forma como a TVI a explora) não está na TVI. Tal como o problema do site da TSF não está na TSF. Tal como o problema do site do Expresso não está no Expresso. E há mais exemplos, penso que estes chegam.

O problema está numa especificidade portuguesa que não tem, que eu saiba, paralelo em lado algum do mundo. Em Portugal, no tempo do auge da bolha especulativa onde o dinheiro saltava em função dos press-releases destituídos de fundamentação honesta, a portalite comprou os meios.

A SIC "é" Sapo, enquanto o Expresso "é" Clix. Este é um exemplo que conheço melhor que os outros. Amarrados a contratos que, admito apenas a benefício da conversa, teriam em plena bolha eventualmente parecido fazer sentido a negociadores inocentes que se deixaram embalar na cantiga do bandido do preço da banda e dos sistemas - mas hoje, e nos últimos anos, têm sido um pesadelo.

A SIC, um manancial de conteúdos de todos os tipos, informativos e de lazer, já podia ter voado sozinha com grandes benefícios individuais e para o grupo Impresa - mas está agarrada a mais um ano de contrato com a PT via Sapo, e segundo sei há a possibilidade de continuar pois, se bem o conheço, Abílio Martins tem uns trunfos na manga. Só espero que desta vez os negociadores vendam CARO para se ressarcirem, pelo menos, de terem passado seis ou sete anos a alimentar a operadora recebendo em troca MIGALHAS.

O mesmo cenário se aplica à maioria das publicações que foi embalada na cantiga da sereia dos "portais". Andaram a alimentar estes e hoje estão perdidas, sem entidade própria, sem terem desenvolvido know-how e competências internas, com os seus fortes brandings chupados até ao tutano pelos "portais", sempre a troco de esmolas (no século XXI, oferecer banda e maquinaria é oferecer uma esmola).

A excepção a isto chama-se Público - o único jornal que teve algumas pessoas a remarem na direcção certa e a sorte de o portal em que se deixou esbater ser, também, pertença do mesmo grupo económico. E mesmo assim o tiro no pé da edição fechada atrasou-lhes o desenvolvimento talvez uns cinco anos.

O Expresso acordou tarde. O grupo Impresa pode recuperar terreno - e está a fazê-lo. Graças ao seu poderio financeiro, bastante superior ao que a sua prestação bolsista dá a entender. Vai-lhe custar mais caro do que se tivesse paulatinamente desenvolvido as competências dentro do grupo ao longo da última década. Agora, corre atrás do prejuízo e vai comprar dez para acertar em dois ou três (oxalá me engane... oxalá me engane...).

O DN passou os últimos anos escondido dentro de uma estrutura de management orientada ao lucro, cega às marcas e às pessoas e nutrindo insensato desprezo pela valor da história - além de desconhecer em absoluto o negócio dos media ("conteúdos" não é a mesma coisa). O capital gerado na operações financeiras alegrou os accionistas, não duvido, mas o título mais prestigiado da Imprensa portuguesa ao longo de mais de um século vive num limbo. Duvido que alguma vez recupere na rede das redes o lugar que seria tão seu como o lugar da BBC é dela, ou o lugar do El País é dele.

Todos os terrenos onde o DN foi forte durante muitas décadas -- do jornalismo aos pequenos anúncios -- estão completamente ocupados na Internet por players hiper-competitivos que disputam o mercado ao milímetro e sabem o que fazem.

O Público faz coisas bem feitas, mas é muita parra para pouca uva. O discurso entusiasta todo virado para o online não passa, até agora, de um discurso de intenções. Basta olhar a ficha técnica do jornal e seguir o seu dia a dia para perceber que (também aqui) José Manuel Fernandes fala muito e não faz nada (ou não deixa fazer nada).

O desnorte é muito grande. Como contratar indígenas parecia mal (e não se deve fazer -- é uma regra dos negócios portugueses de media), venham os consultores americanos pagos a peso de ouro explicar o óbvio, a ver se entra alguma coisa nestas cabeças.

Paulo Querido, jornalista