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Expresso

Paulo Querido

Mobilidade "mata" imobiliário nos centros urbanos

"Para onde foram todos?" pergunta o Financial Times numa reportagem sobre o impacto das tecnologias móveis nas empresas. Os trabalhadores do terciário, e também os seus dados e equipamento, já não precisam de escritórios.

Há umas semanas atrás P. negociava em Lisboa um novo contrato de colaboração com uma empresa e uma das preocupações em cima da mesa, que condicionava as verbas em discussão, era: "vai precisar de um posto de trabalho?" O contratante não se referia a uma workstation informática, nem ao computador, mas sim às vulgares secretária, cadeira e armário que, com os seus três a seis metros quadrados de espaço de escritório, constituem o típico local destinado aos trabalhadores do sector terciário.

Para descanso do contratante e grande satisfação das duas partes, P. respondeu que não, que preferia o regime de trabalho à distância. O que faz, pode ser feito em qualquer parte do globo onde haja boa conectividade e poder computacional médio. A maior parte dos recursos que P. usa estão na Internet, agrupados em dois ou três servidores, incluindo os da empresa contratante.

Por seu turno, a empresa mantém os escritórios sobretudo como função decorativa (e porque ainda não conseguiu vender tanto espaço desocupado): a maior parte do trabalho é efectuado fora, tal como a maioria do seu poder computacional. Só alguns serviços ligados aos segredos da firma, como os velhinhos AS 400 que processam a contabilidade, permanecem no local. Tudo o mais está alojado em máquinas dispersas por dois ou três data centers, em regra edifícios climatizados e controlados, com localização nos arredores, onde as rendas são mais baratas, e de preferência perto de boas vias de comunicações (aeroportos e autoestradas).

Os trabalhadores, como P, trabalham geralmente em casa – o que tem vantagens óbvias e desvantagens não menos óbvias. Um computador portátil e um telemóvel, muitas vezes cedidos pela empresa, são o seu "posto de trabalho" móvel, que vai para onde eles forem. Nos arredores onde vivem ou na província onde se deslocam aos fins de semana e férias, estão ligados 24 horas por dia. A produtividade estende-se ao longo das horas, as poupanças num lado gastam-se porém noutros lados, com os custos da segurança dos sistemas a dispararem.

Os centros das cidades estão a mudar. Quantidades não calculadas de trabalhadores sumiram dos escritórios downtown. Edifícios que outrora se distinguiam pela importância das empresas suas ocupantes servem hoje de depósito de bens sem rosto ou estão vazios, à espera de melhores dias. Talvez venham, talvez não. Alguns são transformados em apartamentos de habitação – uma espécie de vingança, depois de décadas e décadas em que as pessoas foram empurradas dos centros para as periferias. Ainda é maioritariamente habitação para classes com maior poder de compra, mas a tendência aí está, inescapável.

Paulo Querido, jornalista