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Paulo Querido

Linux e Windows: os mitos

Não têm os meus leitores e editores que reparar nisso, mas há duas semanas que mudei para Linux e hoje uso (ainda) os dois sistemas em função das necessidades do momento. Partilho tudo entre ambos – incluindo o correio electrónico e a edição no Expresso online. A dificuldade de migração para Linux é um mito.

A primeira prova de que é um mito é este texto. Foi iniciado num dia desta semana usando o bloco-notas do Windows XP e enviado o título e lead para os editores do Expresso (que deles precisam mais cedo para a paginação da Única) usando esse mesmo sistema operativo e, nele instalado, o meu programa de correio electrónico, o Thunderbird.

Este programa, cuja utilização recomendo vivamente, é gratuito. Tem versões oficiais para Windows, Linux e Macintosh (e não oficiais para outros sistemas operativos). Com ele giro todas as minhas caixas de correio. Tudo transparente, os mesmos filtros contra spam, as mesmas pastas remotas e locais – tudo igual nas duas versões que uso indiscriminadamente: a para Windows, quando abro o computador neste sistema, e a para Linux, quando prefiro arrancar pelo Ubuntu, a distribuição de Linux que agora utilizo.

Tudo igual e tudo no mesmo sítio do disco. Bem sei que isto é diabolicamente difícil de entender para quem já teve os exasperantes problemas de arquivos em que o Microsoft Outlook é pródigo. E bem sei porque tenho tentado explicar a amigos – que não acreditam nas minhas palavras e até mesmo quando lhes demonstro desconfiam que tudo é um truque meu. Preferem falar em milagre ou atribuir a magia aos meus dotes de geek – coisa que não sou. Bem pelo contrário, sou um completo ignorante, não sei, sequer, usar o Windows Media Player.

Sim. Os mesmos mails nas mesmas pastas. Agora entro no Ubuntu e vou buscar o correio, escrevo duas mensagens que envio, logo entro no XP e vou buscar o correio, e estão lá as duas mensagens que enviei antres e não há, sequer, repetição de mensagens nem baralhações.

Continuando com a prova: esta frase está a ser redigida no Gedit, um editor de texto básico, embora menos básico que o Notepad, que se instala automaticamente com o Ubuntu (e muitas outras distribuições de Linux, segundo sei). O facto de ter começado o texto no Notepad, gravando-o numa pasta reservada para o Expresso online incluída nos Meus Documentos (na nomenclatura Windows XP), é absolutamente irrelevante. Num e noutro sistema, o meu desktop contém precisamente os mesmos ficheiros, pastas e atalhos. A única diferença é que no XP descartei qualquer imagem de fundo e no Ubuntu uso uma das sugeridas na instalação.

Daqui a pouco, quando o terminar, poderei contar os caracteres no Gedit ou então abrir um dos dois processadores de texto compatíveis com o formato .doc e formatar à vontade. No caso é dispensável, pois a formatação de texto é efectuada no próprio sistema editorial do Expresso online.

Para tal, usarei o Firefox – o mesmo browser que tenho no Windows. A propósito, é tempo de desfazer outro mito: o de que o Linux é mais rápido que o Windows. Na verdade, o desempenho de um sistema operativo depende de vários factores. Falando em termos de instalações simples, não-artilhadas, no meu portátil habitual o desempenho geral do Windows XP é semelhante, para não dizer ligeiramente mais rápido, ao do Ubuntu, a versão de Linux que uso e é hoje a mais generalizada. Há aplicações que se portam melhor no Linux, como o browser Opera, e muitas outras pior. Como, infelizmente para mim que sou entusiasta do seu uso, o Firefox. Enfim, um preço a pagar – mas que me faz estar pronto para outra mudança (já lá vamos).

Mais que um mito, uma gritante mentira que continua a ser repetida à laia de último recurso do condenado, é a pretensa falta de um programa de apresentações para Linux. Uma alternativa ao Powerpoint, líder do mercado. Lamento desapontar alguns leitores: tal programa afinal existe. Eu uso o OpenOffice Presentation – que tem o mesmo bom hábito que a maioria das aplicações de software livre que já vimos no Thunderbird, nos processadores de texto e nas folhas de cálculo: permite-me editar, alterar, gravar e exibir A MESMA APRESENTAÇÃO, esteja eu a correr Linux ou Windows. Mais: posso editar, alterar e gravar a mesma apresentação usando o próprio Powerpoint (embora não vos consiga explicar porque quereria fazer tal coisa).

Não tendo que reparar nisso, os meus leitores podem usar a seu favor esta minha experiência. Numa altura crítica, em que são obrigados a mudar de sistema operativo, a existência de sistemas gratuitos tão capazes como o caríssimo sistema da Microsoft é um factor a levar em conta. Não é solução para todos os casos, eu sei – mas tenho a convicção que é a melhor alternativa para a maioria, assim a maioria entenda melhor os mitos que o mercado tem gerado.

Quase a terminar: já vos falei do Gaim? Não? Então aqui vai. O Gaim é um aplicativo pequeno e discreto – que me permite ligar a todos os sistemas de instant messaging que sou obrigado a usar por razões profissionais. Eu disse todos. O MSN também.

Agora é que é mesmo a terminar: se vier a mudar de sistema operativo (gostava de experimentar o Mac OSX, admito) basta-me ligar o meu disco externo USB, arrastar para lá uma ou duas pastas, desligar, ligar à máquina nova, e o correio electrónico, as bookmarks e as passwords do Firefox, os documentos e ficheiros, as apresentações, as facturas – tudo estará acessível no momento em que ligar o Apple à corrente. Assim mesmo, tal e qual, é só carregar no botão de on. Como não compro jogos para PC, não me resta nenhuma razão para usar o XP ou o Vista, mas tenho muitas razões – uma por cada ficheiro, uma por cada mensagem de correio electrónico arquivada, uma por cada vírus que fica à porta -- para usar Linux. Ou Mac OSX, se preferir pagar para ter um sistema operativo de marca com notoriedade.

Paulo Querido

jornalista