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Expresso

Paulo Querido

José Sócrates e a Wikipedia: mais factos e questões

O caso da "limpeza" da ficha de José Sócrates na Wikipédia inglesa não é um caso. É uma notícia, sim, mas como notícia foi dada num tom mais apropriado ao Verão e à silly season. Nada contra o tom — há muitos tons na Imprensa, como há muitos tons no jornalismo, como há muitos tons na blogosfera. Já tenho experiência suficiente para saber que "A Verdade" é uma ferramenta demagógica dos mandantes de — lá está — todos os tons, incluindo os pequenos e médios intelectuais da república. Quando conseguimos chegar perto dos factos, já é de ficar contente.

O Pedro Fonseca desmonta a parte substancial do alarido, baixando o nível de gritaria para um patamar que torna possível falar sobre o caso e até ir mais longe. Em pormenores, cita a "cacha" original do Zero de Conduta (Os longos braços da censura socrática — um título totalmente adequado à saison que, este ano, começou mais cedo e não dá mostras de abrandar) e a notícia do João Pedro Pereira no Público (correcta se a consideramos o que é, uma notícia curta e apressada, para levantar uma lebre, não ainda para a cozinhar com todos os temperos).

Lembra PF que as alterações à ficha de Sócrates foram 4 entre as 22 alterações produzidas a partir da rede do CEGER. E com o exemplo do próprio Público (de cuja rede se editou a ficha de Paulo Portas a very gay person e a ficha do diário que passou a quality daily) reposiciona o assunto da edição da Wikipedia: todos a podem fazer, geram-se controvérsias e abre-se espaço a um ganho inequívoco, que é o da transparência total, incluindo sobre o processo "negocial" que conduz à informação que fica oficializada.

Este full disclosure ficará provavelmente como o mais importante legado da hoje chamada web social, vindo a formar-se como corrente desde a década de 80 com os primeiros hackers — os tais malucos que reclamavam a informação quer ser livre.

A censura dos homens encerra para sempre horrores, enquanto a censura das imperfeitas máquinas surge apenas como ridícula — mas este é um tema para tratar no local próprio uma vez que o termo não se pode aplicar aqui.

Questões pertinentes

1. Começo por uma questão marginal, contudo cada vez mais curial: os métodos de identificação online.

Calcula-se que mais de um milhão de computadores no mundo sejam zombies: os seus proprietários usam-nos para um fim e no seu interior um conjunto de rotinas submete-os à vontade de outro senhor, que os instrui quando quer e a partir de qualquer lado, para desempenhar uma acção.

Estes autênticos exércitos compram-se e vendem-se nos circuitos próprios, a preços de ocasião, devo dizer. Por 200 dólares obtem-se uma capacidade computacional capaz de disparar alguns milhões de e-mails por hora, incluída a facilidade de lançar uma instrução de uma única palavra ou frase que é "ouvida" no mesmo centésimo de segundo por 50.000 ou 100.000 microprocessadores preparados para o "combate". (De onde julga que vem todo aquele spam? Se os spammers pagassem o tráfego que geram, tinham falido antes de começar o negócio.)

Onde quero chegar? Aqui: por enquanto a identificação através do endereço do Internet Protocol (IP) da máquina usada para alguma acção na Internet é adequada a situações como a vertente. Não produzirá resultados 100 por cento confiáveis e a tendência é para diminuir a sua precisão, mas é como as impressões digitais: nenhum criminoso ignora que deixa rastos com elas e no entanto numa apreciável maioria de casos o método ainda dá frutos, pelo que a recolha é rotina indispensável.

A associação de ideias não é minha: introduzi-a aqui para despertar a atenção para o autor da ferramenta que foi usada "contra" Sócrates neste "caso". VIRGIL.GRiffith, auto-intitulado Mad Scientist. Disruptive Technologist. Eis o link como ele o pede: Virgil. No WikiScanner FAQ Virgil explica como e porque fez a preciosa ferramenta que permite detectar e sobretudo juntar e identificar, num mesmo instante, as redes a partir das quais foram editadas anonimamente as entradas da Wikipedia (todas as línguas).

Outra das maravilhas da cibercultura é o mashup. Juntar e identificar visual e rapidamente quantidades de informação num mesmo espaço torna tudo diferente. Na verdade, a informação sobre os IPs usados e os seus proprietários já lá estava, disponível, para quem quisesse consultar. Mas coligir todos os IPs, compará-los, verificá-los, indagar noutras entidades a sua propriedade e anotar tudo, era tarefa para muitos dias. E mesmo aí não tínhamos logo a big picture que, como fica patente neste episódio, a ferramenta de Virgil nos dá em instantes.

De novo: ler as motivações de Virgil é fundamental para perceber porque e como se usa uma ferramenta destas. O objectivo é mesmo criar pequenos desastres de relações públicas para empresas e organizações de que não gostemos, cito.

Este "caso" não está ligado ao uso de zombies, aqui invocado para dar uma ideia das dificuldades que vamos encontrar no futuro breve, quando os zelosos rescrevinhadores das "verdades oficiais" e do politicamente correcto perderem inevitavelmente a inocência tecnológica.

2. Teria alguma vez ido parar à ficha de José Sócrates na penúltima edição da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira um período como: "a strong case is being build up against possible false declarations by José Sócrates on his university degree. Under heavy pressure, the Portuguese Prime Minister promised to clarify the situation"?

3. E caso fosse, na edição seguinte esse parágrafo seria apagado, com uma nota de rodapé contendo todas as versões da ficha, bem como a discussão entre os diversos autores dos diferentes parágrafos?

4. (Esta tem a resposta mais fácil,) como se pode falar em "máquina de contra-informação" referindo-se a um conjunto de artigos de edição livre, edição feita numa rede pública e sem segredos, onde todos os nossos passos ficam registados e disponíveis para consulta popular?

5. Ao contrário do tempo em que "a verdade" era aquilo que vinha impresso em livros onde só escrevia quem tinha acesso à máquina de imprimir a verdade, na web não se limpa a fotografia nem se retoca o texto.

Aparte final: os utilizadores gratuitos da palavra censura deviam pensar melhor antes de a usar. E sobre censura será um próximo artigo, mais ligeiro que este.

Paulo Querido