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Expresso

Paulo Querido

Jogos, o futuro da Microsoft

Encurralada pelas Google Inc, MySpace e YouTube, a Microsoft teve uma saída airosa: os jogos de consola. O seu programa XNA vai revolucionar o mercado da mesma forma que o Blogger reinventou a edição pessoal: abrindo a produção de jogos aos próprios jogadores.

Se entrasse numa daqueles conversas sobre os "bons velhos tempos", os meus eram há 25 anos quando brincava com o meu primeiro computador pessoal, um Spectrum 48 K. Oh boy, aquilo é que era divertimento! – diria eu em seguida. E tinha conversa para umas horas, mas descanse o leitor pois será poupado (para mim os bons tempos são estes).

Isto para dizer que milhares de jovens e menos jovens tiraram grande gozo de um detalhe do Spectrum: não apenas podíamos alterar parcialmente o código de alguns jogos, como éramos livres de programar os nossos próprios. A linguagem era o BASIC... e os mais afoitos faziam-no.

Com efeito, a geração dourada de hackers europeus (hoje têm 30 anos e duas dioptrias, calvície prematura, um Clio artilhado, já pago, e um blogue) nasceu para a arte a dar cabo da saída RS232 do Spectrum do irmão mais velho. Nos EUA havia outros computadores, mas era a mesma coisa: divertiam-se não só a jogar, mas também a programar novos jogos (e a destruir os portos série).

As consolas e os PCs vieram estragar tudo. A era do sistema proprietário trouxe gráficos espantosos, realismo cinematográfico e pedais de Ferrari  – mas duas gerações inteiras não conhecem o prazer de "partir" o jogo do vizinho e vê-lo à toa com o nosso.

A Microsoft promete mudar isto. A Microsoft, esse império mundial do software fechado, uma colossal fortuna a vender código proprietário, fabricante da Xbox que desafia milhares dos tais hackers que insistem em correr Linux na consola, tem em versão de teste o XNA Game Studio Express.

Trata-se de uma versão aberta da sua plataforma de desenvolvimento de jogos XNA, esta reservada aos arquitectos e programadores. A versão aberta está disponível para qualquer um puxar e começar a programar – não sendo imprescindíveis grandes conhecimentos de programação pois grande parte das rotinas vêm embutidas, é só colar "peças" tipo Lego e desenvolver os aspectos criativos, como a história do jogo e os cenários em que decorrerá.

Em Agosto, no lançamento, um executivo da Microsoft, Peter Moore, descreveu o XNA Game Studio Express como "o nosso primeiro passo para criar um YouTube para videojogos". Ambição não falta: o YouTube revolucionou o lazer e a relação com a televisão a muitos milhões de pessoas, que desataram furiosamente a filmarem-se umas às outras (e a prole e os cachorros) e a partilhar os seus vídeos de péssima qualidade ao lado dos piratas episódios das séries de culto como o Gato Fedorento.

As primeiras impressões são positivas. A adesão é grande, para já sobretudo nos campus americanos. Até ao Natal apenas se poderão elaborar jogos para o PC, mas está prometido um componente que permitirá transferi-los para jogar na Xbox 360 pessoal. Uma subscrição de 99 dólares anuais bastará depois para poder reproduzir os jogos noutras máquinas – rivalizando com as editoras de jogos.

Se realmente pegar, tem  potencial para revolucionar uma das raras indústrias da informática de consumo que ainda permanece um feudo comercial. O modelo de subscrição não evitará que de um ano para o outro dispare a oferta de títulos disponíveis – e a preços muito baixos. Tal como aconteceu com a democratização dos sistemas editoriais através do Blogger. E a Microsoft respirará de alívio: não só mete uma lança na África da partilha, como abre um novo mercado com significativa dianteira. Mesmo que para tal tenha de queimar alguns parceiros ocasionais, no caso os fabricantes de jogos – mas aqui nada haverá de novo.

Paulo Querido

Jornalista