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Expresso

Paulo Querido

Indústria musical: a explosão da criatividade

O file-sharing e as "redes de pirataria" não acabaram com o negócio da música, apenas o mudaram. Do ponto de vista de músicos e consumidores, para melhor: assiste-se na web a um surto bi-lateral de inovação.

 

Há escassos anos, ou mesmo meses, a seguinte afirmação de David Kusek à Wired (edição de Setembro em papel) seria considerada retórica criativa de alguém a querer dar nas vistas. Mas hoje as palavras do vice-presidente do Berklee College of Music de Boston e co-autor de The Future of Music são um balanço impiedoso e certeiro do passado: "as labels nunca estiveram no negócio de vender música. Estiveram no negócio de vender discos de plástico".

 

Retrospectivamente, Kusek está carregadinho de realismo. A indústria da música, como ainda hoje é conhecida, existiu num curto intervalo de tempo balizado pelo início dos discos de vinil (uma espécie de plástico) e pelo fim do CD (outra espécie de plástico), por acaso coincidente com a existência de artistas, público e canções – existência que de resto lhe é prévia e ameaça continuar póstuma.

 

Quem andasse no negócio da música não teria perseguido primeiro o seu público, que naturalmente fugiu amedrontado, e depois os próprios músicos, tentando impedi-los de publicar (isto é: levar ao público) os seus trabalhos (esta noticia, entre outras).

 

É hoje bem claro: tão condenáveis na lei quanto imparáveis na curiosidade humana, os sistemas de file-sharing e as várias formas de pirataria on line não vieram acabar com o negócio da música mas apenas mudá-lo. É igualmente claro que a mudança beneficia os dois envolvidos. Os consumidores saem a ganhar porque hoje dispõem de uma oferta muito mais vasta e livre (sem a ditadura das playlists e da gravação dos "melhores", uma selecção a que eram completamente alheios). Os artistas saem a ganhar porque contactam com as audiências como lhes aprouver, podem envolvê-las ou não nos processos criativo e produtivo, têm à disposição não apenas um infindável mercado capaz de ouvir literalmente tudo – incluindo milhares de músicas que nunca teriam sido gravadas pelas labels pelas mais diversas razões comerciais e até mesmo "estéticas" –, mas também uma panóplia de ferramentas para todos os gostos e etapas do processo que medeia entre inventar uma melodia na cabeça até levar milhões a cantarolá-la.

 

Graças aos blogues, à auto-edição, à Apple e aos concentradores de turbas sequiosas de entretenimento, como o MySpace e o YouTube entre outros, assiste-se a um surto de criatividade sem precedentes conhecidos. E, recuperando em parte tradições antigas, a inovação é biunívoca: chamado a participar, o público entra com mais do que as palmas, coros ou vaias a que se remeteu durante o reinado dos espectáculos promocionais do plástico.

 

Começam a despontar os mais diversos modelos económicos que sustentarão os músicos do século XXI. E nunca se publicaram tantos títulos musicais como em 2006 (mesmo que muitos não cheguem à edição de plástico). A ponta do véu é levantada na já citada edição da Wired. Que, felizmente para os portugueses, tem publicação gratuita na web: music reborn.

 

Paulo Querido

Jornalista