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Expresso

Paulo Querido

Google e a maldição de Sillicon Valey

Ser uma empresa privada de tecnologias já é mau e ir à bolsa torna-lhes a vida mais dramática. Desde que está debaixo dos olhos do mundo inteiro a Google Inc. viu-se obrigada às malditas leis de Sillicon Valey: lançar produtos colaterais só para manter a pressão sobre os concorrentes e praticar alguma forma de vapourware. O resultado? As primeiras derrotas.

Como todas as outras "startups", até à dispersão pública do capital a Google Inc viveu os calmos tempos do desenvolvimento sustentado. Os fundadores a a sua visão eram todos poderosos. As lógicas próprias do mercado, porém, depressa substituíram essa idílica relação de Brin e Page com o Google e deste com a comunidade de "nerds" que começou por lhe estabelecer a reputação. É fundamental manter a pressão do crescimento e a concorrência em alerta permanente, pelo que vai de lançar serviços em catadupa como quem derrama água sobre areia quente. Mas este é um caminho cheio de escolhos e, Microsoft e Novell (entre centenas de outras) que o digam, cansativo e desgastante.

Até há um ano incensada pelo seu brilho (incontestável) nas pesquisa, a Google trilha agora o caminho da vulgarização nas "web applications". E conhece o significado da palavra "flop". Foi ainda com o sucesso Gmail que se começaram a formar as primeiras nuvens cinzentas (a privacidade posta em causa) mas o "google" seguinte, o Google Talk, estava destinado a ser a primeira derrota. Todo o "hype" da altura, e foi muito, não serviu de nada: segundo a Media Matrix, o GTalk ocupa o 10º lugar no "instant messaging" com escassos 2 % de quota.

Já a aquisição do Picasa, uma aplicação de arquivo e publicação de imagens, tinha parecido acertada, o Picasa concorria ombro a ombro com os sistemas similares. Mas a Yahoo! teve melhor visão ao adquirir o Flickr, mais adequado aos modernos tempos da web 2.0. Em matéria de vídeo, a sorte foi a mesma: feito a correr (desta vez com a prata da casa, não havia nada para comprar no mercado) na sequência do YouTube, o Google Vídeo falhou o objectivo de ser o número 1. Na verdade luta pelos restos com a Yahoo! (mais uma vez) e até com serviços regionais. A Google Spreadsheet (folha de cálculo) e a compra do Writely (processador de texto) são meros instrumentos do cerco à Microsoft, tudo menos as "killer applications" que os maluquinhos pela Google insistem em ver em todo o lado. Fora da pesquisa, o Gmail e o Google Earth podem-se, apesar de tudo, colocar entre os sucessos. O resto é trabalhar para a dor de cabeça.

A maldição que cai sobre as "startups" atrevidas pode no entanto ser ultrapassada pela Google, cujo capital de informação acumulada, talento e capacidade tecnológica não tem paralelo na história da informática.

Paulo Querido

Jornalista