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Expresso

Paulo Querido

Google Apps muda o "jogo" das aplicações de escritório

Lançada na semana passada, a nova versão premium do pacote Google Apps vem mudar o mercado das aplicações de escritório, obrigando a Microsoft a mexer-se. Com um preço de arromba, 50 dólares por conta, o Apps pode substituir o Office com vantagem. Resta saber se as grandes empresas lhe vão pegar.

Tem o nome de Google Apps Premier Edition e é a terceira versão do pacote surgido em Agosto do ano passado. As duas primeiras eram totalmente gratuitas e granjearam à marca fortíssimos reconhecimento e admiração nas quatro partidas do mundo. Agora, chegou o passo seguinte tão inevitável quanto clássico, no mais clássico sistema aplicado na indústria do software desde muito antes da existência da web: o shareware.

Popularizado ao tempo das BBS, o conceito de shareware é simples: a software-house distribui cópias de utilização livre, gratuitas, de produtos comerciais e o utilizador experimenta; se lhe agradar, ou resolver os problemas, acaba por comprar uma licença. Também conhecido por método de "experimente antes de comprar" (try before you buy), o shareware vem habitualmente com um de dois tipos de restrições: ou mostra todo o esplendor das suas funcionalidades por um tempo limitado (30 a 45 dias são os limites mais comuns), ou não tem restrições de tempo mas vem com algumas features desactivadas (aplicações gráficas que fazem tudo mas não deixam gravar o resultado, por exemplo).

As Apps (applications) da Google cabem nesta última categoria. As duas versões totalmente gratuitas funcionaram como montra promocional do pacote mas não incluiam todo o potencial agora revelado pela Premier Edition.

Mas também possuem um toque da primeira categoria. A Imprensa e os blogues deixaram passar em claro, entre outros (pouquíssima gente se deu ao trabalho de testar o produto...), um pormenor fundamental deste pacote: a sua gratuitidade durante os primeiros tempos. Ou seja, quem hoje "adquirir" o Google Apps Premier Edition completará todo o processo excepto o pagamento -- que só será cobrado depois do próximo dia 30 de Abril, e mesmo aí o promitente cliente pode desistir. Entretanto, durante este período de graça terá acesso a todas as funcionalidades.

Entre as principais características introduzidas por esta versão contam-se:

  • Suporte técnico 24 horas por dia, incluindo suporte fora da hora de expediente para os responsáveis;
  • garantia de 99,9% de uptime (disponibilidade de serviço) para o Gmail;
  • API para a fácil integração das Google Apps com a infraestrutura que a empresa já tenha (do correio às intranets aos websites);
  • Gateway de mail (permite aplicar a tecnologia do Gmail às contas de correio já existentes, uma verdadeira killer-application);
  • 10 Gigabytes de espaço em disco;
  • Publicidade passa a ser opcional em vez de obrigatória.

Ao contrário do que normalmente se sugere, o ritmo de inovação da Google tem vindo a abrandar. Desde o AdSense / Adwords (sistema de anúncios de texto popularizado pela Google depois de comprar a tecnologia) que a empresa se habitou a adquirir as competências e as incorporar na visão inicial da Internet tal como a tiveram os fundadores Brin e Page. No último ano a Google começou a organizar-se, uma tarefa nada fácil tendo em conta a quantidade de marcas, serviços, equipas e tecnologias que foi incorporando desde 2002 e em especial depois de dispersar o capital em bolsa.

O Premier Edition é o melhor resultado dessa organização - um pacote uno que finalmente proporciona à empresa o que ela nunca tivera antes: um negócio de serviços de tecnologia. (As receitas da empresa vêm em mais de 99% da publicidade, e faço notar que falamos da marca que revolucionou a pesquisa na Internet e que começou por vender a sua brilhante tecnologia, no que foi mal sucedida).

Ao compor o ramalhete das diversas aplicações que tem vindo a juntar num pacote de escritório de terceira geração (ou seja, moderno e alargado muito para além das necessidades básicas dos escritórios tradicionais), a Google vem mudar esse sector do mercado,  "propriedade" da Microsoft.

A entrada de Ray Ozzie para o círculo de directores que realmente comanda as operações da Microsoft ainda permitiu acalentar as esperanças que a empresa se mexesse na direcção certa: as web applications. E fê-lo. Mas a um ritmo d e m a s i a d o     l e n t     o   para os actuais tempos. Por outro lado, o esforço simultâneo para lançar o Vista, preparar o Zune para o mercado dos leitores de MP3 (ou vice-versa?), aguentar o fogo nas diversas frentes legais e não ficar para trás na guerra das consolas deixou a empresa incapaz de guarnecer o flanco do Office. A estratégia para a web está lá e está certa, mas o tempo passou já a inimigo.

É ainda cedo para declarar vencedores e vencidos na batalha pelo mercado das aplicações de escritório (no seu sentido cada vez mais lato e multifacetado). Mas o lance da Google com esta Premier Edition é fortíssimo.

Paulo Querido

jornalista