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Paulo Querido

El Pais: a Imprensa no seu melhor

Como em Mark Twain, o anúncio da "morte" da Imprensa e do jornalismo às mãos da Internet veio cedo demais. O último exemplo da tremenda capacidade de superação da indústria mediática é a renovação do "diário" espanhol El Pais em linha.

Nos últimos três a quatro anos duas tendências levaram muitos a prognosticar a "morte" da Imprensa e do jornalismo: por um lado a falência do modelo económico em que o negócio dos media assentou durante o último século, por outro a emergência da Geração C – ou seja, a produção e consumo de conteúdos informativos, formativos e de lazer por parte dos próprios cidadãos, graças às democratizantes tecnologias da informação.

Os blogues, sobretudo, e sistemas de partilha de informação que dão o protagonismo ao cidadão contribuíram em grande para o exagero do prognóstico.

A despeito de algumas mudanças no status quo da propriedade dos meios (o número de grupos ou redes de media independentes disparou nos EUA e o fenómeno já se nota na Europa), hoje começa a ser claro que os grupos tradicionais já puseram em movimento as suas grandes máquinas criativas e administrativas, no sentido de se posicionarem correctamente na web. O último – e, atrevo-me a dizer, o melhor – exemplo disso é o diário espanhol El País. No dia 20 o El País mudou de endereço e mudou de rumo. A mudança de endereço é, na sua singeleza, o melhor indicador da ambição do projecto: o El País deixou de ser um .es e passou a ser um .com – ou seja, abraça sem complexos a aldeia comunicacional global. Onde quer que haja um leitor de castelhano – a quarta língua mais falada do planeta com 425 milhões de falantes, mas a segunda nos dois continentes que interessam para este negócio, Europa e América – o El País passou a ser uma das melhores opções para se informar. Esta é a mensagem clara da mudança de endereço.

Quanto ao projecto, que é o que conta, está lá o fundamental das mudanças que a web 2.0, ou dos cidadãos, obriga os media a realizarem: a rapidez de publicação, rigor e fiabilidade da informação, acontecimentos apresentados em multi-formatos (o dito multimédia) para melhor compreensão – sem esquecer a aposta na participação justa e valorizada do cidadão (e a propósito consultar o blogue Cibercidadania, lançado este sábado no Expresso.

O El País aborda o futuro da Imprensa sem complexos nem medos. Investe nos canais que já se perfilam correctos como a personalização dos conteúdos segundo as preferências do consumidor, a geolocalização das notícias (tão óbvio, tão fácil tecnicamente e tão desprezado pelos jornais online, incluindo os melhores) e os aparelhos móveis (WAP, PDA, PocketPC, até a Playstation têm canais específicos). Termino a destacar a aposta no RSS, sistema de compartilhar as notícias, coisa que os jornais temem mas que, ao contrário do que parece à primeira vista, no mundo online representa uma vantagem e não uma ameaça.

Numa economia de grande abundância de meios de informação extremamente competitivos, o RSS é um dos mais poderosos aliados de uma marca. Encorajar os leitores a divulgarem as notícias do El País é a prova suprema de que a Imprensa sabe renovar-se.

Paulo Querido

jornalista