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Expresso

Paulo Querido

Efeitos secundários da ausência de tempo e de memória

Um dos mais curiosos aspectos da Internet é o facto de todos os dias novas pessoas descobrirem coisas antigas, o que as faz parecer novidade. É engraçado seguir alguns destes processos.

A auto-edição permite pretender que se é um "jornal" e que se "informa" os leitores - mas, tal como na Imprensa a sério, a esmagadora maioria do que se publica é, com mais ou menos valor acrescentado, uma repetição do autor original, muitas vezes remetido ao esquecimento.

O pensamento ocorreu-me quando procedia a uma investigação. Com uma ideia a germinar, procurei por semelhanças e, como muitas vezes sucede nos motores de pesquisa, acabei por abandonar a pista (ou, no caso concreto, adiar) e seguir outra completamente diferente e mais aliciante. Fui parar ao website My Favorite Word, um projecto engraçado que parte do seguinte princípio: todos temos uma palavra favorita, qual é a sua?

Os ciberleitores nomeiam a sua palavra preferida e justificam a escolha, que é colocada online; um dia, talvez a colecção chegue a livro - pelo menos é a ideia do autor, Evan Morris. Mas o que nos traz aqui não é comentar o projecto. É perceber um pouco os mecanismos internos da rede, a dinâmica da publicação do chamado conteúdo gerado pelos utilizadores (user-generated content). A geração-C.

O website chamou-me a atenção pelo aspecto algo tradicionalista, muito web 1.0, sem um único dos "perlimpimpins" que acompanham a web 2.0, os blogues, a rede social, estas coisas modernas. E no entanto eu tinha lá chegado através de um blogue que anunciava, com entusiasmo imoderado, ter descoberto uma hora atrás o "fantástico" My Favorite Word -- como se fosse mais uma das descobertas que os entusiásticos bloggers fazem em cada minuto que passa, numa correria atrás da novidade muito mais doentia que a dos jornais (coisa a que nunca pensei assistir na vida).

Quando, já na página inicial, li que o projecto remontava a 2004, fiquei mais intrigado ainda. Confirmei o registo do domínio, cujos dados confirmavam a data (foi criado no registrar Pairnic para Evan Morris, do Ohio, em 30 de Agosto de 2004).

Um pouco mais de atenção ao assunto e descubro que o livro não foi ainda publicado. Morris tem mais em que pensar, ou entende que o material que tem  online ainda não chega para passar ao papel. A coluna sobre palavras que escreve desde 1995 e é publicada em jornais americanos, mexicanos e japoneses, the word detective, está certamente a consumir-lhe todo o tempo.

Decidi percorrer a blogosfera da frente para trás, à procura de menções ao Favorite Words na tentativa de perceber melhor o fenómeno: porque é alvo de tanta atenção e não obtém massa crítica.

Os resultados são auto-explicativos. Uma última pesquisa no momento em que escrevo leva-nos à mais recente descoberta de My Favorite Word: a de MaureenB em Hunkydory Links: a guide to the best on the web. Foi no dia 25 de Fevereiro de 2007 - ou seja, no último domingo.

Oito dias antes fora a vez de missmollygrue. E antes dela, com cadência impressionante, uma vez por semana mais ou menos, seguimos por mais de uma centena de links para referências escritas ao longo dos últimos 577 dias. Quase dois anos ao longo dos quais, repetidamente, alguém descobriu este "cool site". Referenciado em meia dúzia de blogues ligados à literatura no seu primeiro ano de existência, My Favorite Word ganhou fama quando foi pick of the day no Yahoo!, no dia 8 de Setembro de 2005 (link). Desde aí, a blogosfera não parou de o tornar uma "novidade" semanal.

Graças aos motores de pesquisa, mas sobretudo a ferramentas de tracking como o Technorati (veja aqui os 118, ops, 119 links para o My Favorite Words e a sua distribuição ao longo do tempo), fica mais fácil distinguir quem acrescenta valor à informação, quem vai ao baú dos gurus dos anos 90, baralha e dá de novo para parecer que tem uma mão de trunfos, e quem se limita a acrescentar os seus two cents na Grande Partilha de Conhecimento em que a web 2.0 tornou a Internet.

Menos fácil de seguir, porque é preciso alguma memória que se some à capacidade das ferramentas digitais, é a "reinvenção" cíclica de "rodas" como os micro-pagamentos ou a economia dos custos marginais. Alguns dos business models que veneramos como eurekas! da web 2.0 não passam das aplicações práticas do que teóricos do século passado tinham documentado.

Nalguns casos, como o que se descreve a seguir, é uma questão de encontrar o tempo certo para aplicar o conhecimento. Noutros, como a tinta digital ou um interface homem-computador mais natural (dar instruções com a voz, olhos e corpo em vez de premir botões num rato), os avanços e recuos da investigação propiciam campo fértil ao sonho - e à sua divulgação. Sem tempo nem memória, a corrida da fama não é mais ganha pelo pioneiro ou pelo visionário: tornou-se uma espécie de lotaria que, democraticamente, qualquer um pode ganhar.

"Encontra-se num castelo medieval belissimamente desenhado, cara a cara com um dragão verde de longos dentes que solta baforadas de fumo. Você (bem, na realidade o seu avatar) está vestido com um roupão, adequado sem dúvida para quando se sai do banho mas um pouco desajustado para combater dragões. Nesse momento repara numa polida armadura, a um canto do muro do castelo. E então? Pode alugá-la por cinco cêntimos e ir combater a besta" - tradução do inglês um pouco apressada).

Este parágrafo descreve duas realidades emergentes em 2007: a dos jogos online com economia própria e a dos micro-pagamentos instantâneos e fáceis. Mas não foi escrito hoje a propósito dos três milhões de "habitantes" do Second Life, nem do lançamento europeu da Playstation 3. Nem sequer na semana passada. Tem um pouco mais de tempo. Quanto tempo?

Ora aqui está um bom desafio para os leitores do Expresso se armarem em detectives. O primeiro a responder com o link para a página e o nome do guru ganha 10 cêntimos (é necessário PayPal).

Paulo Querido, jornalista