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Expresso

Paulo Querido

E também há polícias no ciberespaço?

Embora por vezes pareça, a web não aumentou o número de criminosos mas sim as notícias sobre eles, em particular os cibercriminosos. Menos noticiados são os polícias, ao ponto de a pergunta fazer sentido: afinal onde estão, no ciberespaço?

Há polícias no ciberesaço e estão um pouco por todo o lado. A disseminação, no entanto, é um problema: isolados nas suas "ilhas", sem partilha da informação, cada um precisa aprender tudo por si só.

A globalização torna inúteis muitos conceitos locais. O spam e o mail marketing, as redes de pedófilos, os cibergangs com o homebanking por alvo, as "quintas de zombies", são fenómenos globais e só podem ter enquadramento (e acção policial) global.

Agir à escala global envolve uma organização capaz de levar o conhecimento para onde ele é preciso. As organizações policiais existentes assentam em modelos de comunicação piramidais, hierárquicos, desajustados da velocidade da vida moderna e totalmente inúteis no combate à cibercriminalidade.

Uma rede, por outro lado, permite partilhar o conhecimento horizontalmente: a experiência de um torna-se por assimilação a experiência de todos e a troca de informação em tempo real tem efeitos notáveis ao nível da eficácia.

Uma rede – a Virtual Global Task Force é exactamente isso, uma rede onde agentes de três continentes trocam informação, tendo sido criada em 2003 para ajudar no combate a uma das práticas cibercriminosas mais mediatizadas: a pedofilia e abuso de menores.

Ainda esta semana agentes da VGT se reuniram em Washington numa conferência para divulgar novas formas de combate aos pedófilos – sabia que um potencial predador pode sacar a informação vital sobre uma criança, como o nome completo, telefone, escola e morada, num chat de 20 minutos?

A VGT tem um website onde disponibiliza aconselhamento e permite relatar casos de conduta inapropriada ou ilegal com um menor online, para quem esteja na Austrália, Canadá, Grã-Bretanha ou Estados Unidos. Lista também diversos websites seguros para crianças. A informação começa, finalmente, a fluir.

Porém, é no mínimo preocupante que ao seguir os links para a página da Interpol – a única força policial envolvida na VGT que não pertence a nenhum daqueles quatro países – deparemos com um domínio que expirou e está à em leilão. Licite em www.interpol.org! (O website oficial passou a ser www.interpol.int, num domínio de topo reservado para organizações internacionais, o que está correcto; mas não se pode aceitar o abandono do domínio histórico).

Esta preocupação com a pedofilia parece mais uma operação destinada a combater a supremacia dos pedófilos nos noticiários, onde contribuiu para a sensação geral de insegurança, ao mesmo tempos que esconde o insucesso das polícias noutras áreas da web. Voltarei ao tema.

Paulo Querido, jornalista