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Expresso

Paulo Querido

Crise da imprensa: uma lição

Quando, com um pouco mais de vagar, aprofundamos a leitura e relacionamos os diversos estudos disponíveis em linha, a crise parece dizer sobretudo respeito aos grupos de imprensa instituídos e, mesmo dentro destes, a um tipo particular de imprensa: a diária generalista e paga. Os títulos situados nas "extremidades", como a imprensa dita cor-de-rosa e, nos seus antípodas, os títulos de análise e os sectoriais, vendem cada vez mais papel a cada vez mais leitores. Mais: o número de títulos aumentou nos últimos anos em ambos os extremos, tanto na imprensa de, digamos, baixa qualidade de papel, como na imprensa de papel "couché" de pesada gramagem.

 

A procura de causas para a crise na deriva electrónica – e dentro desta nos conteúdos gerados pelo consumidor – explica em parte porque se dá a erosão ao centro do espectro: são as classes médias consumidoras de actualidade (informação e sobretudo opinião) quem está a trocar o papel, do qual já não retiram o que pretendem, pelo imediatismo da rede global. Já os consumidores de entretenimento continuam a adquirir a sua dose pela via normal dos produtos de espectáculos, "show-off", "jet-set" e afins, e os leitores dos magazines específicos permanecem fiéis aos seus títulos, da "Maxmen" à "Economist" passando pelo "New Yorker" e pela T3. Note-se que o "New Yorker" e a "Economist" subiram as tiragens nos últimos anos, bem como outras revistas temáticas.

 

As novas realidades comunicacionais da rede não podem ser descartadas, evidentemente. Mas exceptuando o "roubo" (aos generalistas e à televisão) de uma fatia que já supera os 10% nas receitas de publicidade, nada nelas emergiu como uma ameaça concreta. Pelo contrário, a rede afigura-se como um aliado da imprensa (e, de passagem, do jornalismo).

 

Passadas as euforias iniciais, começamos a assistir à concentração de "bloggers" em projectos e desenha-se o verdadeiro valor do "jornalismo do cidadão": praticado, afinal, por uma ínfima fracção dos consumidores, trata-se de um contributo acentuadamente marginal, ainda que valioso e refrescante, ao jornalismo profissional. É uma questão de tempo e meios até os grupos de imprensa absorverem a capacidade produtiva das "massas trabalhadoras" e verterem a seu favor os factores de inovação.

 

O mal é que a justificação da transição para a web esconde outras realidades importantes. Os públicos "étnicos" deixam de contar estatisticamente como leitores da imprensa generalista porque passam a consumir informação através de meios pensados para as suas línguas e culturas, por um lado; e por outro temos a localização do noticiário e da pequena e média publicidade (que pela sua natureza não fugiu ainda para os Adsenses e outros programas baratos e rentáveis na rede). Entretanto emergiram tendências contraditórias com o anúncio da crise: as audiências dos noticiários nocturnos diminuem, é um facto amplamente divulgado, mas poucos fazem notar que há um aumento do número de horas dos programas informativos matinais! E também as emissoras locais vêem as audiências aumentar de manhã.

O advento dos gratuitos é a machadada final no negócio de vender papel impresso às classes médias. Mas o papel continua. E os leitores também.

 

Paulo Querido

Jornalista