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Expresso

Paulo Querido

Como os spammers ganham a vida

"Estou impressionado pelo profissionalismo do seu blog". "Muito útil!" "Você ganhou a lotaria". Os spammers fazem tudo para nos chamar a atenção. E fazem-no com grande inteligência. Quando apagamos"spam, apagamos obras primas de engenharia social. E tecnológica.



São uma trupe dedicada ao que faz, e fá-lo com ardor. Se o leitor julga que ser um artista do spam é fácil, desengane-se. Imagine o que é criar "obras de arte" que são distribuídas aos milhares de milhão de cada vez, mas apenas um punhado delas será lida por olhos humanos.



Demoraram perto de uma década a aprimorar estilos e técnicas. É um mundo curioso e onde nada se perde (sobretudo porque nada se gasta: pede-se o computador "emprestado" ou parasita-se o sucesso da página do vizinho): uma mensagem criada no ano 2001 pode perfeitamente circular hoje – mantendo a taxa de interesse e de cliques que justifica a sua atenta manutenção.



Raras pessoas têm o spam na devida conta. Ora, como eu, o desprezam bem como a todo o sistema económico-jurídico que não só o permitiu como o estimulou. Ora o seguem com a atenção reservada às grande obras. Talvez nem tanto ao mar, nem tanto à terra: afinal, é um negócio de milhões, controlado por meia dúzia de indivíduos de nacionalidade americana a que as polícias deitam a mão e os tribunais justamente devolvem à economia, onde são agentes preciosos, criando riqueza a partir da ingenuidade e usando recursos, digamos assim, emprestados. Uns génios, é o que eles são.



Há dias, numa mailing-list que subscrevo, falou-se do spam nos blogues. Aqui os objectivos são um tudo-nada diferentes: enquanto no mail se trata de aproveitar a inocência dos incautos, bem como a sua boa vontade (e nalguns casos a extrema solidão), nos blogues e sites com interacção aproveita-se tudo isso e ainda o "sumo" que os links proporcionam em termos de motores de busca.



(Parágrafo sucinto para quem não sabe: a relevância dos resultados das pesquisas assenta, entre outros parâmetros, na quantidade e qualidade dos links que existem para cada página, e que o Google e os outros medem com regularidade.)



Enquanto no mail basta apagar, nos blogues a coisa é pior: nenhum autor gosta de estar a apresentar aos seus leitores resmas de mensagens sem nexo, por vezes carregadas de dezenas de links para sítios surpreendentes, que podem ir do inócuo ao abjecto. Um fluxo impossível de controlar por meios humanos. A conversa, na lista, era precisamente sobre um filtro que cumpre a função de uma forma espantosa, com resultados acima dos 99% de fiabilidade: o Akismet. Uma peça de engenharia de software verdadeiramente admirável – precisamente o que nos falta para enfrentar o spam, constituído por peças não menos notáveis, numa guerra pela sanidade dos fluxos de informação digital na Internet.



Ah, mas convém ter por perto alguém com um olhar irreverente! Sem mais comentários, e obviamente sem os links que em regra acompanham as frases com que os spammers mais tenros tentam iludir a atenção humana, respigo de uma resposta na lista:



"Sinceramente!... Eu não sei o que vocês têm contra estas simpáticas mensagens. Vou referir algumas que recebi só hoje (e, claro, tenciono responder delicadamente a todas):

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Eles só acrescentam aquilo do Viagra e do poker porque são uns gajos porreiraços que querem partilhar informação - como nós fazemos nos blogues. São uns queridos, garanto-vos, até se dão ao trabalho de repetir as mesmas mensagens a partir de outros endereços de e-mail. Se pudesse respondia com 15.000 mensagens de agradecimento para cada um deles, como eles conseguem fazer (letrados tecnológicos é o que são!).



Com tantas mensagens a elogiarem o meu blogue, hoje sou um homem feliz!
"



Paulo Querido,

jornalista