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Expresso

Paulo Querido

Cinco razões para um jornalista ter um blogue (e cinco para não ter)

Como sucede com grande frequência, as notícias da morte do jornalismo são um tudo-nada exageradas. Mas os jornalistas devem acompanhar os tempos. Ou seja, terem um blogue. Eis uma lista de cinco boas razões para o terem e outras tantas para não o terem - ou o uisque e a água das pedras, como dizia um amigo meu, antigo jornalista (e que não tem um blogue).

Aqui há umas semanas o João Pedro Pereira, jornalista do Público, citava no seu blogue um artigo de Chris Cobler, outro jornalista que também tem um blogue, mas americano, do Greelety Tribune (Colorado). Como também tenho um blogue, acho meu dever fazer o que um bom blogger faz: aproprio-me da ideia em terceira ou quarta mão e acrescento-lhe a minha piada de sal. Ok, este último aditivo não faz parte dos deveres do bom blogger, mas é um tique, assumo.

Cobler, que ia dar um sermão de fim de semana a jornalistas, listou aqui cinco razões para estes terem um blogue. O João Pedro puxou das cinco e juntou-lhe as suas ali.

Eis a lista de cinco razões pelas quais um jornalista deve ter um blogue:

  1. Melhora a escrita
  2. Atrai e envolve o público
  3. Oferece um melhor entendimento do mundo digital
  4. Ajuda a desenvolver alguns conhecimentos técnicos
  5. É divertido

Como na web 2.0 uma lista nunca vem só, acrescentamos mais cinco razões para um jornalista ter um blogue:

  1. Ajuda a mantermo-nos a par dos assuntos que se desenrolam gradualmente
  2. Traz à atenção (através de comentários dos leitores, de referências cruzadas ou simplesmente da procura de algo sobre que escrever) assuntos que passariam despercebidos
  3. Ter um blogue permite-nos conhecer outras pessoas e permite que elas nos conheçam. É mais fácil abordar alguém que pode ser uma fonte quando esta pessoa segue aquilo que escrevemos - mesmo que nunca tenha havido um contacto directo
  4. Permite um registo diferente do da escrita profissional
  5. Ensina a comunicar eficazmente na Web

Eu concordo com tudo. Gostava de desenvolver a história de melhorar a escrita, mas infelizmente não tenho tempo para vos explicar em pormenor como é que se melhora a escrita escrevendo um texto que provavelmente escreveria na mesma, ou talvez não, o que acham? Atrai e envolve o público, não haja dúvida! A maioria das vezes atrai público indesejável e sujeita-nos a envolvimentos que sinceramente preferíamos passar ao lado, mas não há dúvida que atrai e envolve o público. É aliás por isso que ajuda a desenvolver conhecimentos técnicos: como é que se bloqueia aquele comentador que acha que é realmente anónimo e como tal pode e deve insultar-nos à vontade? Isso sim, é desenvolver conhecimentos técnicos imprescindíveis ao jornalista do século XXI.

Como se compreende facilmente lendo o último parágrafo, é divertidíssimo ter um blogue.

Porque um blogue nos ajuda a estar a par dos assuntos que se desenrolam gradualmente. O que seria de mim sem a blogosfera para me oferecer uma tão ampla gama de comentários e opiniões ao longo dos meses sobre a relação do uso, ou não, do título de engenheiro por José Sócrates com a sua performance como Primeiro Ministro? Sim, o que seria de nós? (e penso que este é um parágrafo 2 em 1: arrumo logo o tema da atenção a assuntos que passariam despercebidos.)

Sem o bloguezito para experimentar os registos diferentes, o que seria dos pobres jornalistas modernos, sujeitos a uma carga laboral de tal ordem que os impossibilita de zurzir o teclado com porcarias como livros, peças de teatro de revista - ou simples desenhos em guardanapos, como fizeram gerações e gerações dos seus ociosos antepassados?

Manifestada a minha concordância - admito que de forma um pouco estranha na blogosfera, esta duvidosa ironia - com as cinco razões para um jornalista ter um blogue, em dose dupla como os uisques no Jamaica nos bons velhos tempos, vamos então à água das pedras: as cinco razões para um jornalista não ter um blogue.

  1. É monótono. Podemos escrever o mesmo post seis vezes por ano que ninguém repara. Nem nós
  2. É um desperdício de energia. A maioria dos leitores não vai perceber nada porque lê apressadamente e de qualquer maneira já sabe tudo pois leu qualquer coisa sobre o assunto algures um dia destes, na semana passada ou foi há quinze dias?
  3. Quando escrevemos que isto é azul, vai aparecer um leitor aos berros provando que é amarelo. É muito desagradável. Para as cores, claro
  4. É irritante. Uma pessoa esfalfa-se a escrever um post super-bem, duas horas de pesquisa e três a dar ao dedo, sobre, digamos, as culturas hidropónicas em Marte, e aparecem vinte leitores de rajada na caixa de comentários a discutir animadamente a cor dos suspensórios que fulano teria levado à televisão se por acaso lá tivesse ido. Deveras irritante, experimente o caro leitor também
  5. Havia uma quinta razão, bem sei, mas não estou agora a ver qual era...

Paulo Querido, jornalista