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Expresso

Paulo Querido

Cibercultura (I): uma animação marcante

São quatro minutos e dez segundos de animação produzida em computador. Tem uma história engraçada, mas mais do que isso, é um exemplo do que a web social está a fazer pela cibercultura.

O que distingue a curta-metragem animada Animator vs Animation?

Duas coisas. Primeiro, a ideia. Trata-se de uma resposta a um vídeo original no qual um boneco criado por um desenhador se rebela e começa a destruir o programa de desenho. As respostas, ou réplicas, são frequentes no YouTube, constituindo um dos desafios à criatividade no ambiente da web social. Esta resposta, porém, vai muito além do primeiro video. É uma peça mais completa, com muito mais imaginação e horas de trabalho.

Segundo, o ambiente. A cibercultura não foge à regra e originou a uma gama de discursos que caracterizam o meio Internet, sendo dele emblema. A referência ao cada vez mais presente The Matrix – a obra cinematográfica que mais cibercriadores influencia – está presente no nome escolhido para o boneco, O Escolhido (The Choosen One). Dar nome à coisa traça-lhe o destino: O Escolhido tem poderes espantosos e vai rebelar-se contra o criador, ao ponto de partir a janela do programa de animação e iniciar a destruição do desktop do computador.

Não consegui detectar a autoria, uma vez que várias pessoas colocaram reproduções no YouTube. Merece ser visto e partilhado. Merece também reflexão: juntamente com uma enorme quantidade de peças cujo interesse não vai além dos circulos restritos dos seus autores (o que alguns sobranceiramente classificam de lixo) , os meios de produção digitais e a Internet enquanto canal de distribuição abriram espaço a novas criatividades e criadores de categoria indiscutível. Apesar da sua qualidade, nunca chegariam ao público que merecem, parados pelos filtros e funis da fase industrial que dominou a produção cultural do século XX.

Paulo Querido, jornalista