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Expresso

Paulo Querido

A Microsoft e o ciclo de mudança

Três nomes sonantes deixaram a Microsoft nas últimas semanas. Coincidência? Ou início do ciclo de mudança que o gigante vai fatalmente atravessar?

 

"Vou deixar a Microsoft para iniciar a minha própria companhia. O meu último dia na Microsoft é sexta-feira, 18 de Agosto". Foi nestes termos que Niall Kennedy anunciou no passado dia 8, no seu blogue (Niall Kennedy's weblog), a  intenção de deixar a maior empresa de software do mundo.

 

Mas ao contrário das outras duas vedetas geeks que deixaram recentemente a Microsoft, Kennedy teve azar: a notícia do lançamento do editor de blogues Windows Live Writer (um produto surpreendentemente bom) surgiu na mesma semana e ocupou as manchetes digitais, ofuscando o seu caso.

 

Antes de Niall Kennedy tinham saído Robert Scoble (blogue Scobleizer) e Vic Gundotra. A saída de Scoble afigura-se eventualmente como a de menor efeito, mas os três tinham um valor acrescentado muito importante para qualquer estratégia de futuro, pelo que é difícil minimizar os impactos das suas ausências. Isto, claro está, do ponto de vista da dependência da massa cinzenta do tipo visionário, o mais raro e valioso, porque massa cinzenta ao quilo é coisa que não falta à empresa, que só este ano recrutou 10 mil pessoas.

 

Scoble, um blogger muito conhecido, ajudou a modificar a percepção pública da Microsoft, antes uma empresa "demoníaca" e hoje com a imagem bem mais suavizada. A sua importância foi maior "cá fora" do que dentro da empresa. No pólo contrário estão Niall Kennedy, contratado já este ano para uma função de vital importância estratégica (codificar a plataforma de feeds), e sobretudo Vic Gundotra, que durante 15 anos "segurou as pontas" na empresa, contratando os melhores programadores fora do mundo fechado do Visual Basic (a monocultura da Microsoft, onde raros técnicos se interessavam pela Web...). Gundotra contratava talentos como Kennedy e apoiava cérebros como Scoble.

 

Poder-se-á falar em "brain drain"? Penso que não. Este ciclo de mudança iniciou-se há algum tempo mas só foi oficializado com o anúncio de reforma de Bill Gates, que na mesma altura indicou Ray Ozzie para a sucessão a prazo.

 

A turbulência é natural e, neste caso, é até de saudar: a Microsoft é uma empresa versão 1.0 numa indústria que, passada a bolha, fez o upgrade para a versão 2.0. Quem não evoluir, definha. E evoluir significa mudar. Estratégias, cargos, pontos de vista. Pessoas.

 

A saída de Gundotra (e outros) para a Google Inc. parecerá à primeira vista um mau presságio, mas bem vistas as coisas é uma janela de oportunidade que se abre para todos os envolvidos. O desafio é o melhor estímulo desta indústria. A Microsoft facturou anos a fio sem desafios; agora têm-nos, o que só lhe pode fazer bem.

 

Paulo Querido

Jornalista