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Expresso

Reginaldo Almeida

Vá de férias preocupado!!!

Desde sempre, no mês de Agosto, habituei-me a ouvir uma expressão no mínimo insólita: silly season. Fazendo uma análise superficial, a condizer com a expressão, desde logo se percebem os motivos de tal baptismo bem ao jeito das manifestações de lazer da época louca, muito vocacionadas para as ondas, a areia e o sol.

Habitualmente nesta época, os meios de comunicação social promoviam conteúdos light, alinhados com a marca da camisa e as calças vermelhas que encadernavam os corpos bronzeados dos tios e das tias, consequência dos raios ultra-violeta dos algarves dos ricos e dos pobres ou mesmo dos solários que vão povoando cada esquina.

Assim, mais no passado do que agora, neste tradicional mês de festas e romarias, cá pelo burgo parecia que o mundo era formatado à nossa dimensão, verdadeiramente cúmplice com o nosso plano de férias e com a necessidade de distrairmos o pensamento com coisas simples. Os conflitos no Médio Oriente, as fomes em África ou as greves na Europa pareciam dar tréguas, deixando-nos descansados. O calor à séria e as serenas noites de luar permitiam mesmo ignorar os buracos do ozono e todas as verdades inconvenientes apregoadas pelos comportamentos da mãe-natureza. Quanto muito eram realidades que iam acontecendo do outro lado do planeta às quais se assistia entre o prazer de uns tremoços e umas imperiais...

Mas neste Agosto parece que já não é assim. Afinal o que é que mudou? Será que o relógio do mundo já não pára e o sindicato do crime já não vai para banhos...? Claro que não, como aliás nunca aconteceu. As principais diferenças radicam por um lado, na diversidade de fontes informativas que povoam o nosso quotidiano amplificando os efeitos da notícia e, por outro, no facto do mundo se ter realmente transformado na aldeia global onde todos somos cada vez mais vizinhos uns dos outros com a particularidade dos níveis de adrenalina e perigos serem cada vez mais intensos.

Convém não ignorar a realidade pois também no mês de Agosto, em fatídico acto contínuo, papel químico dos outros meses, no mundo a fome continua a matar mais do que os conflitos armados mas, por falar em guerras, também estas não tiram folga e dos recônditos países africanos ao Iraque ou ao Afeganistão, as mortes continuam em prime-time, independentemente do glamour dos churrascos de gente bonita e do sorriso estudado que se deixa fotografar. 

Tenho cada vez mais a convicção que o mal é cada vez mais global e, quer queiramos quer não, no futuro próximo teremos propensão para preocupações cada vez mais permanentes. Basta reflectir com alguma atenção nas conclusões do relatório recentemente publicado pela Organização Mundial de Saúde e concluir que, por exemplo, o bio-terrorismo ou a pneumonia atípica e respectivas síndromas respiratórios, são problemas que vão afectar milhões e milhões de pessoas nos próximos anos e – como ironicamente se pode concluir – o mês de Agosto não vai ser excepção...

Reginaldo Rodrigues de Almeida