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Expresso

Reginaldo Almeida

O maior da minha rua

"Portugal é Sensacional!". Um dos principais slogans do Estado Novo que naquele tempo só encontrou paralelo num outro de pendor não menos colonialista: "Muitas raças, um só Povo".



Mais de trinta anos volvidos, sobre as quase cinco décadas da longa noite, com novo vocabulário diz-se que "Portugal está na moda" mas, é bom que se reafirme, parece continuar não menos "sensacional", ou seja, apesar dos índices de pobreza idênticos aos encontrados naquela época, sem esquecer o lancinante analfabetismo funcional, poderoso aliado da incapacidade bem à portuguesa, estamos prontos para, entre outros balões de soro, anunciar a espectaculosidade da segunda geração das Sete Maravilhas do Mundo, colocando-nos assim no topo das auto-estradas da informação apesar da frágil performance nacional gerada pelo emprego científico.



Coincidentemente, por estas bandas, ficámos também a saber que temos o maior clube do mundo com direito a figurar no Guiness Book. De acordo com os entendidos, o Sport Lisboa e Benfica tem mais sócios que o Manchester United ou mesmo o Real Madrid (a propósito, talvez não seja perda de tempo a rápida consulta da minha anterior crónica, aquela que tenta compreender as várias dimensões das estatísticas...), ainda que na prática desportiva, este rectângulo à beira-mar plantado mostre a mais pequena comunidade de praticantes da Europa.



Na Literatura, no passado recente, soaram as trombetas no palco da academia sueca e assistimos à entrega do Nobel a um autor português. Mais uma vez andámos na mira dos holofotes internacionais ainda que a ratio  de leitura de jornais e revistas na casa dos portugueses continue a ser perfeitamente catastrófica.



É certo que no verdadeiro ícone em que se transformou a Sociedade do Conhecimento, cada centímetro do planeta dos info-incluídos está permanentemente marcado pelas tecnologias de comunicação e assim os bons exemplos, contribuirão de forma positiva para afirmação externa do país, no entanto, terão também fatalmente a capacidade de nos enfeudar ao Acessório e é essa a destrinça que não pode deixar de ser feita, evitando que muitos optem pela via mais fácil e conformista.



Ser reconhecido é bom e ser o mais bem sucedido ainda é melhor, contudo o quotidiano faz-se com a densidade da floresta e não com esta ou aquela árvore e só deveremos estar convictos que somos  verdadeiramente bons se continuarmos a trabalhar na busca da inovação e de renovadoras fórmulas de aplicação social.



Convém nivelar por cima e promover a auto-estima mas é bom não andarmos distraídos pois anda por aí muito papel de embrulho.



Reginaldo Rodrigues de Almeida

Prof. universitário e autor