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Expresso

Reginaldo Almeida

Estupidamente actual!

Pode parecer uma sugestão de leitura (e não deixa ao mesmo tempo de o ser) mas fundamentalmente é uma proposta de reflexão. O nome de Anthony Burgess diz-vos alguma coisa de especial? Não?! Pois vale a pena conhecer.

Corria o ano de 1962 quando escreveu um romance, posteriormente adaptado ao cinema, pela magia de Kubrik, utilizando no grande ecrã o mesmo título: "Laranja Mecânica".

Filme pesado, uma verdadeira antologia dos conflitos de gerações; da violência; do totalitarismo político; do vandalismo; da orientação de massas através da televisão; da violência gratuita, enfim da violência e mais violência.

Muitos estarão agora a recordar o filme, principalmente as marcantes cenas do jovem Alex preso, com os olhos bem abertos, para não poder recusar ver as imagens de violência, uma espécie de terapia de tratamento para os seus comportamentos.

Apesar deste tema ser digno de ponderação e, em oportunidade futura merecer nova abordagem,  não é sobre essa violência que agora quero escrever, mas sim sobre o Nadescente, o dialecto que Alex e os amigos daquele tempo falavam quando estavam em grupo, gerando o caos pois os encarregados de educação desconheciam-no e os polícias, em vão, tentavam percebê-lo.

O autor do romance baseou-se em vocábulos de origem eslava e sistematizou um vocabulário no qual os jovens se identificavam, construindo a emergência de novos valores (quem sabe se para compensar a falta de qualquer outra "realidade virtual").

Também quando hoje falamos do Internetês , é impossível deixar de recordar o Nadescente e rezar (seja a que Deus for) para que o resultado social não se assemelhe. No entanto, é no mínimo pertinente perguntar se as semelhanças - e são mais do que podem parecer - são pura e mera coincidência...

Regra geral, em particular no campo da produção de ficção cientifica, não é difícil ter sido escritor e "previsto" o futuro. Muito do que aconteceu nas diversas séries televisivas do "Caminho das Estrelas" acontece com facilidade hoje um pouco por toda a parte e, se quisermos ser honestos, desses filmes só o teletransporte ainda não é possível mas seguramente será uma questão de tempo...

Outros exemplos não faltam, desde Philip Dick, percursor do formato ciberpunk que está na génese de "Blade Runner", onde seres geneticamente modificados reclamam direitos iguais aos dos humanos, até ao "Neuromancer" de William Gibson, que vulgarizou a expressão Ciberespaço, cada vez mais a sensação de "já vi isto em qualquer lado" está presente.

Apesar de tudo, sou dos que acreditam que estamos no mundo mais para rir do que para chorar...

Reginaldo Rodrigues de Almeida

Prof. universitário e Autor