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Expresso

Reginaldo Almeida

Em cada esquina, o Grande Irmão

Respirar fundo, com grande fôlego, vamos a isto: código do cartão multibanco, código do cartão de crédito, código do cacifo, código PIN do telemóvel (e ao terceiro engano, o código PUK), código de acesso ao home banking, código de acesso a bases de dados, código da porta do prédio, código do alarme, código do alarme da empresa, código do computador, código de acesso à página da escola dos filhos, código do cofre, código postal, código do rádio do carro, código da mala de viagem, código do correio electrónico, código dos canais por cabo. Uff!!! Isto assim cansa e, apesar de muitos, outros tantos ainda faltam, de certeza!

Pois bem, além destes que identificamos de forma directa, diariamente, da cabeça aos pés, entram-nos de forma sub-reptícia todas as outras abordagens da revolução tecnológica gerada pelo 0 e pelo 1, ou seja, mais código, neste caso o binário que a cada momento renova todos os outros códigos: das cores às barras; dos códigos abertos aos códigos fechados; do código da estrada ao código de conduta; do código ético ao código deontológico; do código civil ao código penal; do código do trabalho ao código do procedimento administrativo, sem esquecer o inigualável código do ADN. Códigos e mais códigos, sem limites, até à escala da verdadeira saga do Código Da Vinci...

Definitivamente, caros leitores, estamos codificados. Entre códigos e chaves de acesso e outras ferramentas à mesma dimensão, a cada passo, não só colocamos a nossa memória à prova como demonstramos que fazemos parte duma gigantesca irmandade, aparentemente invisível mas incrivelmente envolvente que nos controla e rodeia.

A maioria da informação que julgamos proteger com códigos pretende-se confidencial e o seu conhecimento por parte de terceiros pode mesmo colocar-nos em situações difíceis: entregarmos, por exemplo, o código do multibanco sob coacção será evidentemente um assalto.

A criptografia, entrou nas nossas vidas sem darmos conta e assim, a favor ou contra a nossa vontade, comunicamos através de códigos, fazendo lembrar a célebre Enigma, cujo código quando foi desmantelado teve uma importância fulcral no desenlace da 2ª guerra mundial. Desde então, a robotização marca presença e invade a nossa privacidade, criando uma qualidade de vida discutível que a todos os momentos presta vassalagem ao "verde código verde".

Também parece legitimo perguntar se perante tantos códigos podemos concluir que temos cada vez mais segredos? Que dominamos cada vez mais e melhor informação? Que a informação que nos interessa cada vez está mais segura? Em tese geral sim, no entanto, na génese desta crónica não já que a subjectividade da palavra segredo permite-nos concluir que o principal vector que caracteriza a sociedade actual é a Dicotomia de tão contraditória quanto afirmativa, de tão aberta e transparente quanto enigmática, de tão confusa quanto fluente.

Meia dúzia de algarismos soltos, anos de nascimento, conjugações de datas de aniversários dos filhos, nomes de animais de estimação são algumas das formas que utilizamos para sobreviver no quotidiano numa dimensão próxima da matrix ainda que enganadora para os que não fazem da cidadania verdadeira profissão de fé. Ironizando, para terminar: entre muitas outras razões, porque será que o Bin Laden não usa cartão de crédito?!

Reginaldo Rodrigues de Almeida

Professor universitário e autor