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Expresso

Reginaldo Almeida

Desilusão ao longo da vida

Ciclicamente, a velha estória: no ensino secundário, mais de metade da população estudantil não consegue concluir o ciclo de estudos e assim, ano após ano, geração após geração, abandona a escola e confirma uma das mais tristes e tradicionais sinas da endémica pobreza cultural e científica da nação.

Também ao mesmo ritmo, rotinados nesta triste realidade, decisores políticos e cientistas sociais, fustigados pelas constantes estatísticas dos relatórios das instituições europeias, renovam estudos e debates que apesar da complexidade da apresentação e da tecnicidade das palavras-chave utilizadas se recusam teimosamente a passar da teoria à prática.

Consequência deste carrossel de tristezas, nestas andanças tornaram-se comuns os lamentos, os dedos acusadores às generalizadas más condições das escolas e à fraca consistência das dietas alimentares das cantinas; à inconsistência dos planos de estudos e à ineficiência dos conhecimentos transmitidos pelos manuais que não servem para nada, muito menos para se transformarem em competências.

Como está bem patente, por estes lados não falta unanimidade, bem pelo contrário, afina-se uma cartilha entoada em coro por associações de pais e centrais sindicais, sempre na linha da frente a impedirem que a culpa morra solteira . O governo, em particular o Ministério da Educação, paga a factura...

Com efeito, ninguém, no perfeito juízo, pode dissociar a voz de todos os que não dão tréguas ao conformismo ou a qualquer espécie de facilitismo. No entanto, existem razões conexas que obrigam a outras abordagens. Ou seja, neste jogo de derrotas sucessivas, qual será a quota-parte de responsabilidades dos professores e até dos alunos no desvario do actual processo educativo e no incumprimento dos objectivos da reforma curricular? Será que, invariavelmente, são os eternos parentes pobres que padecem perante o poder discricionário das políticas dos governantes? Será que não têm responsabilidades neste escândalo nacional como agora lhe chamam? Têm e muita. Mais os professores que os alunos, ainda que estes últimos, muitas vezes, tenham aquilo que merecem...

A verdadeira escola começa em casa e o prolongamento desta não pode ser uma espécie de passeio flauteado pleno de "nova pedagogia" que não suporta o insucesso. A escola genuína, apoiada por processos sérios de ensino/aprendizagem, requer estudo e disciplina.

Quanto aos professores (concedendo que todos estão cientificamente bem preparados) têm de ser muito mais que simples pedagogos, isto é, têm de ser verdadeiros provocadores, desafiando consciências e formas de estar, sugerindo a escola como um permanente e salutar desafio. Certamente as desistências serão muito menores.

Afinal quantos dos nossos docentes do ensino secundário estarão, de facto, preparados para ensinarem os filhos dos outros a pensar?

Reginaldo Rodrigues de Almeida

Professor universitário e autor