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Expresso

Reginaldo Almeida

De vitória em vitória...

Os últimos indicadores mostram que o desemprego continua a marcar forte presença na sociedade portuguesa e, independentemente das políticas de emprego mais ou menos acertadas e das macro-remodelações efectuadas no comércio e na indústria, quase sempre é invocado - pelo rigor das estatísticas e pela análise empírica - como uma das principais causas da exclusão social, ao mesmo tempo que é consequência do actual marasmo económico, social e cultural, afinal bem longe do "Portugal Genial" apregoado por muitos no início da presente legislatura (não menos menos certo é o facto que tudo não se consegue fazer de uma só vez).

No mesmo sentido, as conjunturas que assinalam os maiores índices de desemprego estão também quase sempre associadas à mão-de-obra desqualificada e aos baixos níveis de literacia e de formação básica formal, impedindo a dinamização de uma musculada plataforma social, fundamental para o desempenho dos mais elementares preceitos constitucionais que, na prática, não são mais que o direito a consubstanciar uma condição de vida digna.

Mas em Portugal, a tendência alta do desemprego, além da dramática realidade que já representa, ainda reproduz e camufla uma outra dura dimensão do quotidiano, habitualmente travestida por muita cosmética e enervantes estratégias, de valia duvidosa, criando habilidosamente, através das estatísticas, falsas modernidades no "Portugal Real".

De facto, as denominadas políticas de estágio de inserção na vida activa por demasiadas vezes não são mais que matreiras estratégias de preenchimento de postos de trabalho, a custo zero ou a custo muito reduzido, sem qualquer espécie de sintonia com os propósitos para que aparentemente foram criadas.

Esta realidade, conhecida por muitos empresários (e malogradamente por muitos "estagiários"), contraria profundamente os desígnios da verdadeira Democracia Electrónica e, ainda que pareça projectar o rectângulo à beira-mar plantado para uma corrida ao desenvolvimento e à coesão social, move-se numa espécie de tapete rolante que não deixa sair de terreno pantanoso.

Tanto se fala em gestão danosa quando as empresas não cumprem regras do foro contabilístico. Não será o capital humano o principal activo que deveria, no mínimo, ser tratado com a mesma dignidade? Nem é preciso ser profundo conhecedor de Porter para perceber que essa distracção é sinónimo de uma das maiores desvantagens competitivas da nação...

Cada vez estou mais convencido que as elevadas taxas de desemprego portuguesas são fundamentalmente uma consequência da nossa forma de estar que afinal prefere a política do desenrasque e, a continuar assim, nunca conseguirá evitar a derrota final.

Reginaldo Rodrigues de Almeida

Professor universitário e autor