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Expresso

Reginaldo Almeida

Chatice no país das maravilhas

 A passos largos, aproxima-se o mais importante evento do calendário litúrgico, o Natal. Nessa época, invocam-se cânticos de amor, fraternidade e compreensão em dose dupla. Para muitos, tempos de paz  e  alegria, mas também de compras, muitas compras, provavelmente para muitos mais.

Pese embora o reforço financeiro do oportuno subsídio de Natal que se avizinha, o crédito ao consumo privado dispara, esgotam-se os  plafonds das contas-ordenado e dos cartões de crédito. As grandes superfícies preparam as estratégias publicitárias do "leve agora e pague depois" (paradoxalmente, quase sempre   nos antípodas do espírito natalício) fazendo as  repetidas delícias dos miúdos e até dos graúdos que agora, em alternativa às loiras, preferem o "agradece e retribui" das prendas cheias de adrenalina e papéis de embrulho de abundantes laçarotes.

 Os presentes de Natal, para quem os pode dar e receber, são certamente sinais de conforto e de bem-estar, todavia, convém não deixar afundar a mais expressiva festa mundial  nesse impiedoso carrasco, de visão mercantilista e imprevisiveis consequências, adornadas por taxas de juro galopantes.

É certo que desde há muito se diz que quem não tem dinheiro não tem vícios, mas também se sabe que nesta época, os maiores cegos são aqueles que não querem ver e se  refugiam no politicamente correcto da fuga para a frente.

Dinamizar o tecido económico é fundamental e o Natal pode ser uma das fortes alavancas do comércio pela magia que transporta, no entanto, o sobreendividamento de muitas das famílias portuguesas de médio e baixo rendimento constitui factor de elevado risco e ainda maior preocupação.

Urge criar uma cultura de maior responsabilidade, evitando a "oferta" de cartões de crédito, casas ou carros em condições deslumbrantes, até porque qualquer bem ou serviço tem, como não poderia deixar de ter, um preço que invariavelmente terá que ser suportado na íntegra, independentemente da estória de encantar com que nos foi apresentado.

A Nova Economia deve ser sustentada em pilares sólidos e um deles, o consumo privado, deve ser  uma plataforma  que não pode viver permanentemente em realidade virtual, já que os encargos lá de casa são bem reais...

Por isso, usar e abusar das Novas Tecnologias para decretar os maiores desvarios em nome do Pai Natal, não é boa atitude e contraria o conhecido preceito da quadra e, a persistir-se na actual estratégia, o verdadeiro Natal, para muitos, cada vez acontecerá menos e a comemoração lá para os finais de Dezembro cada vez será mais uma mera coincidência...

Reginaldo Rodrigues de Almeida

Prof. universitário e Autor