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Expresso

Reginaldo Almeida

Amargo de boca, apesar dos açucares...

A construção de medidas contra o insucesso e o abandono escolar precoce, a par do sempre necessário e intransigente combate às diferentes formas exclusão social e, em particular, ao trabalho infantil, inúmeras vezes epicentro de factores de adversidade social e até de delinquência juvenil, têm sido motes de todas as legislaturas e ainda que muitas vezes possam parecer demagógicos na boca de alguns protagonistas da vida pública não podem, de facto, serem esquecidos pois o olhar atento para essas realidades é o verdadeiro ADN da Democracia e peça essencial da álgebra da vida das gerações do futuro.

Além destas metas pertencerem aos discursos politicamente correctos, não é menos verdade que ninguém deve conceder um milímetro que seja na concretização desses objectivos, verdadeiros imperativos categóricos que estão na base de qualquer grau de civilidade e crescimento organizado, necessários à verificação dos mais elementares preceitos constitucionais.

Contudo, convém não andar distraído já que na Sociedade da Antecipação em que todos os dias se vive registam-se, por vezes, geometrias variáveis de generosos delírios e de falsas modernidades mas que na prática não são mais que idênticas situações, vividas noutros moldes nas vilas e nas aldeias, sem esquecer os gigantescos guetos camuflados pelas luzes de néon do cosmopolitismo das cidades.

Vamos a isto: a indústria das telenovelas, cada vez mais de produção caseira, tem vindo a ganhar a preocupação principal na vida de muitos e assim, perigosamente, deslumbrando jovens que à distância de um écran sonham com o passaporte para a notoriedade e habitual conto de fadas do dia-a-dia dos actores, da mesma forma que nos anos 60 ou 70 se aspirava ser futebolista ou intérprete no Festival da Canção.

E assim, diariamente, constantemente relatado pelas revistas da especialidade cor-de-rosa, crianças quase de colo, jovens de borbulhas na cara a guindarem o sexo a produto de primeira necessidade, mostram quão dura é a vida no star-system, das horas a fio das gravações, do rigor dos guiões, dos cachet`s, do grande empenho e blá-blá-blá... tudo para orgulho dos encarregados de educação babados e símbolo de inveja dos vizinhos.

De repente, a indagação que aqui se deixa é saber se estes também não estarão a faltar à escola? Sim, tal como os outros que na secreta esperança de aprenderem um ofício também faltam! Se não estarão também a sonegar competências à construção dos respectivos processos cognitivos e até de cidadania?

Já que tanto que se fala em condição de vida; no aperfeiçoamento das reformas estruturais que permita que o Sol nasça para todos, parece pertinente referir que por vezes as diferenças estão na forma e não no conteúdo e a ser assim, tanto poderá ser fatal o cachet pago pela produtora como a retribuição paga pela fábrica de calçado.

Afirmar princípios de modernidade é relativamente fácil mas executá-los, de acordo com o que se afirma, já é mais difícil..

Reginaldo Rodrigues de Almeida

Professor universitário e autor