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Expresso

Reginaldo Almeida

A arte do polegar em toda a cela

A mão humana é um instrumento maravilhoso e não é em vão que já foi comparada a uma delicada obra de engenharia ou de arte. Uns mais que outros, todos fazemos parte da tribo do polegar. Falo de certos 'uns', é claro, os que vivem acima da linha de água do desenvolvimento pois associa-se o uso deste dedo que tanto nos distingue dos outros animais, ao envio de mensagens através dos telemóveis e à utilização de jogos via consolas...

Todavia, o uso da mão no seu todo, com a capacidade analítica de uma pinça, de apanhar objectos e segurá-los, também tem sido alvo de mudanças quando aliada ao uso de novos instrumentos que nos facilitam a vida. Abençoado berbequim e seus acessórios que evitam que estejamos tempo sem fim a aparafusar. Bendito serrote eléctrico que nos poupa tanta transpiração e tempo. Viva quem inventou a direcção assistida nos automóveis que até parece aumentar o tamanho dos lugares de estacionamento. Fantásticas pistolas de tinta que, com o pressionar dum dedo regam as paredes evitando aqueles movimentos de pulso, tão conhecidos do jovem protagonista do filme 'O Campeão'. Hoje aspira-se e não se varre e não nos lembramos da última vez que esprememos uma laranja ou um limão ou demos à manivela para picar carne. A bolonhesa ou os hambúrgueres vêm prontos do talho. Temos facas eléctricas - com diferentes serras para a carne ou para o pão - ou um saca-rolhas, entre outros acessórios, todos com o mesmo apelido: eléctrico. Já nem falo das fabulosas máquinas de lavar roupa que transferiram a palavra 'tanque' essencialmente para a gíria militar e o objecto em si para a fila de espera dum eventual Museu das Actividades Domésticas (interessante iniciativa transversal no universo feminino e que mostraria as dificuldades e por vezes a dureza da vida doméstica de antigamente, especialmente a todos quantos pensam que ser-se doméstica é estar em casa sem fazer nada...).

Por seu lado, se as máquinas de secar nos poupam as molas da roupa espalhadas pela casa e conhecermos cada centímetro das cordas penduradas às janelas, as de lavar loiça são até consideradas afrodisíacas por muitos casais, e objecto de piadas sobre a diminuição do número de brigas sobre em quem recai aquela tarefa doméstica...

Muitos outros equipamentos são exemplos desta vivência actual, mas embora muitos deles existam há décadas, o seu uso maciço é característico da sociedade de hoje e nem todos implicam uma substituição do uso da mão humana, como é o caso das torradeiras, das panelas eléctricas, dos microondas ou dos fornos eléctricos.

Na verdade, cada vez temos menos força nas mãos à custa de as exercitamos e treinarmos menos: se nos dão uma tarefa mais pesada surgem do nada as dores nas articulações e nos pulsos e atribuímos a aparente facilidade de carregar qualquer coisa às pessoas do campo ao facto de estarem habituados. E temos razão. É uma questão de hábito e nós apenas vamos deixando de estar treinados. Ir às compras é tarefa para se fazer de carro pois temos que as carregar e quando não temos viatura disponível encomendamos os produtos via Internet. É fácil é barato e não dá dores nas mãos.

Desenganem-se aqueles que pensam que sou contra estas facilidades pois, pelo contrário, sou fã da existência de opções, principalmente quando nos facilitam a vida. Mas por maior que seja a nossa satisfação não é nada que se compare com as implicações deste novo mundo, sempre renovado, até nos aspectos menos evidentes das nossas vidas.

Resta reflectir sobre os erros do quotidiano, tantas vezes atribuídos à máquina quando, na verdade, são todos humanos. A tecnologia é simplesmente abstracta na função de uso.

Reginaldo Rodrigues de Almeida