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O mundo dos outros

Valha-nos a bomba

José Cutileiro (www.expresso.pt)

As pessoas e os países devem estar sempre preparados para se defenderem de quem lhes queira fazer mal. Nem sempre conseguem: ao longo da História, povos inteiros - ou grupos perseguidos dentro de cada povo - sofreram e, nalguns lugares, continuam ainda a sofrer horrores. Antero de Quental esperava que a razão (e o irmão e a irmã dela - o amor e a justiça) fizesse prevalecer a virtude mas acabou desencantado: aos 49 anos meteu duas balas na cabeça num jardim público de Ponta Delgada. Mesmo quem sobreviva até à morte natural sabe que não se pode distrair, e hoje, depois das catástrofes que os europeus causaram a si próprios e ao resto do mundo indo para a guerra em 1914 e em 1939 e, sobretudo, dos "avisos à navegação" que foram Hiroshima e Nagasaki, as duas únicas cidades até agora destruídas por bombas atómicas, as nações têm muito mais cuidado do que alguma vez tiveram a tratar umas com as outras.

Que a guerra fria da segunda metade do século passado não se tenha transformado em guerra quente ficou a dever-se à existência dos arsenais nucleares americano e soviético. Que nos dias de hoje a crise financeira e económica não tenha levado a mobilizações gerais, corridas a armamentos e retóricas belicistas, deve-se a hábitos de relações pacíficas entre as potências impostos, em última análise, pela presença continuada de arsenais nucleares (aqueles e outros). Por isso, se procurar diminuir a quantidade de armas nucleares existentes - como americanos e russos estão agora a fazer - e impedir a sua proliferação a países que não as tenham são tarefas necessárias e urgentes, acabar com elas seria um erro crasso. A natureza humana não mudou muito ao longo da História e em pouco tempo países que julgavam ter posto a guerra de parte recorreriam de novo a ela.

Com a veia norte-americana de bem fazer, Barack Obama afirmou recentemente a visão de um mundo livre de armas nucleares. Tal satisfez muitas boas almas em todas as partes do mundo, foi bem acolhido pela hipocrisia institucional das Nações Unidas e talvez lhe traga vantagem táctica no braço-de-ferro actual com o Irão. Mas animou também inimigos dos Estados Unidos, em particular, e dos regimes democráticos em geral, a quem agradaria campo livre das restrições actualmente impostas pelos acordos internacionais existentes e respectivos regimes. Se a dissuasão nuclear, conceito novo na história da humanidade (e incómodo quando se pensa no que realmente significa), foi fundamental e cumpriu a sua função de prevenir guerras entre as potências, e embora a eventual posse de armas nucleares por um grupo terrorista acrescentasse um dado novo ao problema, não creio que o desarmamento nuclear (mesmo de boa-fé) traga ao mundo mais paz e segurança. Pelo contrário.

Barack Obama tem mostrado mais bom senso do que ideologia. Mas pode haver um lado 'escuteiro' nefasto nas relações dos Estados Unidos com o resto do mundo. Às vezes também é preciso defendermo-nos de quem nos queira fazer bem.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010