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O mundo dos outros

Será desta?

José Cutileiro (www.expresso.pt)

O mano escultor, fino como um coral, costumava dizer que não percebia porque é que se falava tanto do "milagre alemão" e nunca se falava do "milagre português": a capacidade de viver gastando mais do que aquilo que se ganha. Lembrei-me dele no começo da semana quando, depois dos governos europeus decidirem por fim que era preciso mesmo salvar o soldado euro, os mercados ganharam o que tinham perdido, o euro recuperou e muitos julgaram que a Europa escapara ao pior. Talvez sim, talvez não.

O esforço de previsão e solidariedade que acabou por ser feito aliviou muita gente mas se os delinquentes continuarem a portar-se como antes - os "países do alho", assim os rottweilers de Max Weber lhes chamam na Alemanha e na Holanda; os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) dizem anglo-saxões desdenhosos, esquecidos dos números, por exemplo, da Bélgica e, fora da zona euro mas dentro da União, da Hungria, da Letónia e do próprio Reino Unido - as bolsas voltarão à carga para nos meterem susto ainda maior. Porque o problema não é o especulador, papão predilecto de políticos e burocratas europeus, avessos ao risco e habituados a ordenado ao fim do mês, que gostariam de o liquidar. Como disse há dias no seu blogue Luís Soares de Oliveira, um dos espíritos mais lúcidos virados para estas coisas: "O especulador (...) governa-se pela margem de lucro previsível. Se a margem permitida for maior do lado do short, ele opta pelo short e empurra-nos para o buraco com a maior sem-cerimónia. Não pede licença nem sequer avisa". Por isso, se se quer que as bolsas não deitem abaixo o euro não bastará espartilhá-las com mais regulamentos (e ter cuidado a fazê-lo: miserabilistas há que adorariam matar a galinha dos ovos de ouro). O que é preciso é que os países que tomaram o euro por moeda tenham as contas públicas em ordem, respeitem o Pacto de Estabilidade e sejam exportadores competitivos. Esta regra de vida destina-se aos PIIGS e a todos os outros Estados europeus - mas vai doer a alguns deles quando for aplicada. Se não for, porém, adeus ó vindima. Nova crise financeira abriria crise política grave. A tentativa de unir a Europa a bem, começada por Schuman e Monnet há cinquenta anos - com os europeus estafados e distraídos... - acabaria por falhar como falharam as tentativas de Napoleão e de Hitler de a unir a mal. A História voltaria a galope, para se vingar.

Com sorte, talvez tal não aconteça. Sobressaltos financeiros parecidos afligiram outras partes do mundo - a crise asiática de 1997, por exemplo - e os Estados recompuseram-se. Melhor exemplo ainda é o da Argentina que António, amigo sagaz, me lembrou. Nos anos loucos de falsa prosperidade a Argentina era hostil ao Mercosul - um esboço de mercado comum sul-americano - mas à saída da bancarrota de 2001 transformou-se em sua defensora acérrimo. A fome, às vezes, é boa conselheira. Pode ser que desta vez PIIGS & Companhia ganhem juízo (e a Alemanha o perca um pouco...).

jpc@ias.edu

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010