Siga-nos

Perfil

Expresso

O mundo dos outros

Pessimismo

José Cutileiro (www.expresso.pt)

A única coisa boa do pessimismo é que às vezes a gente se engana, ensinava o grande humorista espanhol Chumy Chúmez quando a "Codorniz" - "La revista más audaz para el lector más inteligente" - besuntava de humor negro os anos do franquismo. Conto-a aqui porque na semana passada, a uma esquina da Lapa, amiga me disse que gostava de me ouvir na telefonia ao domingo "porque tu és um optimista".

Para eu ser considerado optimista é preciso que haja no mundo da informação portuguesa muito pessimista da pesada. Não dei bem por isso porque tenho passado a maior parte do tempo desta crise no mundo dos outros e não no meu. Ora as desgraças que, por causa da crise, estão a acontecer a todos os europeus - a uns mais, a outros menos mas a todos - agravam-se no jardim à beira-mar plantado graças à propensão lusíada para a tristeza. (Ouvido através de um tabique: Voz de mulher - "Então, tudo bem?" Voz de homem - "Que remédio!"). Com o rótulo inesperado de optimista a minha amiga impôs-me a obrigação de continuar.

A crise é um bicho que arreganha os dentes de muitas maneiras diferentes, segundo as pessoas e os lugares. Para os males que causa há remédios, uns mais penosos e mais certeiros do que outros, que procuram obter dois efeitos: aliviar o sofrimento, prevenindo recaídas, e evitar que a construção europeia (isto é, a garantia de prosperidade, segurança e bem-estar de todos nós, construída nas últimas seis décadas de Helsínquia a Atenas, de Varsóvia a Dublin, de Paris a Berlim) se desmorone. Os sintomas são económicos ou financeiros mas a questão é política. Não exige de quem mande na Europa doutoramentos em matemática mas exige bom senso, decência, visão e coragem. Os inimigos a derrotar são os vendedores de banha da cobra do costume. À direita, os que não gostam da mó de baixo - não tanto os "capitalistas de casino" mas os populistas tradicionais, xenófobos e caceteiros, cuja demagogia atrai em tempo de desemprego e medo dos outros. À esquerda, os dos amanhãs que cantam, verdes ou vermelhos - Marx gerou muitas seitas nocivas - prontos a "oferecer ao povo em massa o holocausto do povo a retalho". Ouve-se que já não há gigantes a mandar na Europa - como Churchill, De Gaulle, Adenauer - e que sem outra grande guerra (Diabo seja surdo...) teremos que ficar pelos pigmeus. Talvez. Mas a ocasião faz o ladrão e espero que com a crise ainda surja, nas pátrias ou em instituições europeias, alguém capaz de roubar um lugar à História.

O que está em jogo é enorme. A história da Europa na primeira metade do século XX foi pautada por duas tentativas, vãs mas calamitosas, do poder alemão se impor aos outros. Na segunda metade, a Alemanha, derrotada e dividida, aceitou que os outros se impusessem a ela. No começo do século XXI, reunida de novo e de novo forte, tacteia o seu caminho sem saber ao certo como lidar com o resto da Europa (e este com ela). Homens - ou mulheres - de Estado, precisam-se. Estou a ser optimista ou pessimista?

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010