Siga-nos

Perfil

Expresso

O mundo dos outros

Pequenas histórias morais da velha Europa*

Camponeses da incorrupta, eficaz Finlândia que os mandarins de Bruxelas proíbem há anos de caçar lobos desesperam por verem os lobos multiplicarem-se e dizimarem cada vez mais renas, fonte do seu sustento e inspiração da sua mitologia. A fúria é tal que o comissário europeu responsável pelo Ambiente já encontrou uma bala na caixa do correio. Sabichões, os mandarins não desarmam e lembram aos campónios que homens e lobos têm vivido juntos há séculos e não há razão para deixarem de o fazer. Há mais de 100 anos que ninguém é morto por lobos na Finlândia mas, na década de 80 do século XIX, foram-no 22 pessoas e se Bruxelas insistir na igualdade de direitos de homens e bestas talvez se torne a atingir equilíbrio assim.

Segunda história. O Lande alemão Renânia do Norte-Vestfália recebeu um choque finlandês. Nokia anunciou que ia fechar uma fábrica em Bochum, na Alemanha, e passar a produzir em fábrica nova, na Roménia, os telefones portáteis que lá fazia. Irão para rua 2.300 pessoas. À beira de eleições, a classe política alemã barafustou mais alto ainda do que é costume contra a imoralidade desses nórdicos que há 20 anos tinham recebido subsídios estaduais, federais e comunitários para se instalarem e agora desamparam a loja por acharem excessivos os custos do trabalho. Esquerda e direita desconfiam de manigâncias com fundos de Bruxelas, advogam boicote da marca, queixam-se de que Nokia, "em vez de (como se gaba) juntar pessoas, destrói sociedades". A Comissão Europeia diz que está tudo em ordem e lembra que se a produção se pode mudar da Finlândia para a Alemanha também se pode relocalizar da Alemanha para a Roménia. Em suma: o europeu é o lobo do europeu. Por enquanto. Para 2008, Nokia prevê o maior crescimento do mercado de telefones portáteis (15%) na Ásia-Pacífico, China, Médio Oriente e África e o menor (menos de 10%) nas Américas do Norte e do Sul e na Europa.

Terceira história. Na Grã-Bretanha, relatório de uma fundação "quaker" verberou o Ministério da Defesa porque este, na publicidade que faz para atrair voluntários, mostra a carreira das armas de maneira aliciante e não alerta bem os futuros soldados para os riscos físicos e dilemas éticos que os confrontarão, incluindo a questão de poderem ter de matar. Os "quaker" são antimilitaristas: acham que se toda a gente pensasse bem e tivesse bom coração não haveria guerras e que o caminho para a paz passa pelo desarmamento, duas receitas de desastre. Conheci um tenente-coronel reformado português que, na guerra de 14-18, comandara uma bateria de morteiros em França e me contou que, sempre que mandava disparar contra o inimigo, rezava para não matar ninguém. Tinha, como os "quakers", um coração de ouro, mas se muitos do seu lado tivessem feito o mesmo (e Deus os tivesse ouvido), o outro lado teria ganho a Grande Guerra.

Nos jornais ingleses reacções do público ao relatório sugerem que bom senso e patriotismo ainda perduram mas todo o cuidado é pouco.

*com vénia a William Saroyan

José Cultileiro