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Expresso

O mundo dos outros

Paz na Irlanda do Norte?

Até há poucos anos, na imprensa inglesa, Gerry Adams era um perigoso terrorista e o Rev. Ian Paisley um perigoso inspirador de terroristas. Com a bênção de Londres e Dublin, preparam-se agora para governarem juntos a Irlanda do Norte.

Fora desta, a arrogância justiceira euroamericana não parece ter limites e atiça pelo mundo ódios que, sem ela, poderiam estar em vias de se extinguirem. Evoca-se Nuremberga mas tal não serve de precedente do que se passa agora. O tribunal de Nuremberga foi um tribunal de vencedores, os vencidos tinham-se rendido incondicionalmente e os Aliados - que nessa altura incluíam a Rússia - rasparam o abcesso até ao osso. Ocuparam a Alemanha por muitos anos e nazismo e anti-semitismo foram erradicados. Mais de sessenta anos depois do fim da guerra, a Alemanha é o mais pró-israelita dos membros da União Europeia.

Os tribunais de agora (o Tribunal Criminal Internacional; o tribunal da Haia para a antiga Jugoslávia; o tribunal misto - local e internacional - para julgar no Camboja membros do regime de Pol Pot) são diferentes. Também são tribunais de poderosos e só julgam gente que não o seja (não há, por exemplo, russos sentados num banco dos réus por causa de crimes na Tchetchénia) mas não são tribunais de vencedores - querem sim castigar imparcialmente crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Carla Del Ponte atira-se ao ex-primeiro-ministro do Kosovo, Ramus Hadarinaj, com o zelo com que se atirara ao falecido ex-presidente da Jugoslávia, Slobodan Milosevic. Com resultados tão funestos num caso como noutro, porém - e aí é que está o busílis.

Se Milosevic tivesse sido julgado pelos seus em Belgrado, o processo, sem um mártir da pátria na Haia, não teria dado vida nova ao agressivo nacionalismo sérvio. No caso de Hadarinaj, as consequências são piores ainda pois este revelara-se capaz de visão e talento táctico que fazem muita falta para meter o Kosovo em ordem. No Uganda, depois de décadas de rebelião e negociações laboriosas, o Governo e os chefes guerrilheiros do Exército do Senhor estavam a chegar a acordo quando o Tribunal Criminal passou mandados de captura a estes últimos. Acabaram as conversações; mediadores africanos tentam esta semana restabelecê-las, não dando execução aos mandados. No Camboja, o tribunal está suspenso porque os juízes de fora querem aplicar critérios internacionais e os da casa querem utilizar a lei local. Os primeiros procuram satisfazer as suas consciências; os segundos precisam de reconciliação nacional.

Imagine-se que um tribunal deste género se ocupava da Irlanda do Norte. Teria inevitavelmente pronunciado Gerry Adams e o Reverendo Ian Paisley por suspeita, respectivamente, de prática de actos terroristas e de encorajamento à prática de actos terroristas. Não teria havido o acordo de Sexta-Feira Santa de 1998, nem substituição de balas por votos, nem possibilidade de um governo conjunto de católicos e protestantes. E paz? Adeus, ó vindima.