Siga-nos

Perfil

Expresso

O mundo dos outros

O futuro da Europa

Grandes cabeças da ciência - matemáticos, físicos, astrónomos - têm acreditado em Deus. Muitas outras não: entre cientistas há mais ateus do que crentes, mas vale a pena recordar o argumento de alguns destes, verdadeiros cientistas e não profetas do criacionismo ou intérpretes literais do Antigo Testamento. Aceitam o Big-Bang, os milhões de anos do universo e a teoria da evolução. Mas acrescentam que a probabilidade estatística de a harmonia que se verifica da imensidão do cosmos ao mais microscópico dos organismos resultar de acaso é tão ínfima que lhes parece necessário postular Deus como causa final do universo.

Não ocorreria recorrer a Deus para explicar a existência da União Europeia - mas esta deve-se certamente a circunstâncias históricas muito extraordinárias. A seguir à Guerra de 39-45 a Alemanha estava de rastos e, amachucados, os vencedores europeus - Grã-Bretanha e França - já não mandavam no mundo, disputado pelos Estados Unidos e a União Soviética. Lord Ismay, primeiro secretário-geral da NATO, enunciou assim o propósito da organização: manter os americanos dentro da Europa, os russos fora dela e os alemães na mó de baixo. Hoje, os americanos continuam dentro (economia e segurança entrosadas com as da Europa), os russos fora e a Alemanha passou para o cimo da mó de cima sem ter feito estrago aos outros. Entretanto, a União, inventada sob a protecção da NATO e com ajuda do Plano Marshall por visionários práticos, está a fazer da Europa um pólo de poder no mundo globalizado. Mas com mais de meio século de defesa assegurada pelo arsenal americano muitos europeus engordaram, passaram a achar naturais o sossego e conforto em que vivem - e talvez não aguentem a pedalada.

Das duas uma. Concorrência comercial da China e da Índia estimula-os a trabalharem mais e melhor, a verem na globalização uma oportunidade e a continuarem a alargar a União para a tornarem mais populosa e forte; vizinhança incómoda de uma Rússia cada vez menos democrática e cada vez mais agressiva leva-os a porem em comum os seus recursos e as suas estratégias energéticas; os riscos do terrorismo islâmico e os da proliferação de armas nucleares ou químicas (os primeiros já sentidos na carne por alguns de nós e exigindo ambos vigilância permanente) convencem governos europeus da urgência de aprofundar a cooperação dos seus tribunais e das suas polícias. Ou, pelo contrário, interesses agrícolas imediatos bloqueiam visão comercial a longo prazo; xenofobia e populismo recusam novos alargamentos; espertezas nacionalistas continuam a impedir a formação de um poder europeu para negociar energia com a Rússia e a entorpecer agilidade intra-europeia na justiça - e a Europa ficará mais pobre e mais fraca.

Não estamos em 1945 e os europeus de hoje têm de entender que nada lhes é devido: se não se ajudarem a si próprios ninguém mais os ajudará. Alguns já se compenetraram disso; outros ainda não perceberam que os almoços grátis acabaram.

José Cutileiro