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O mundo dos outros

O declínio do Ocidente

José Cutileiro (www.expresso.pt)

Duas tias de André Gide estavam convencidas de que o comunismo seria quando elas fossem criadas das criadas delas. Numa vila do Alentejo, grande herdeiro latifundiário dizia de mestre de obras novo-rico que gostava de ostentar ordinarice e se declarar de esquerda que quando viesse o comunismo queria ser criado dele: "Para o ensinar a comer; para o ensinar a vestir-se..."

O comunismo não chegou a vir mas os agoiros deixavam tudo em família. Do resto do mundo não se falava, desde os americanos (que ainda trepavam às árvores quando os iraquianos já haviam criado Babilónia, fulminou Jacques Chirac a um amigo meu em 2003, quando Bush bombardeou Bagdade) até aos milhões de pessoas de outras cores - africanos, chineses, índios - do que haviam outrora sido impérios da Europa. Os americanos eram primos burros mas fortes, prontos a defender os europeus de ataques de estranhos. Os outros, desde Vasco da Gama, tinham deixado de ter poder que contasse no mundo. Cinco séculos passados, esse poder começou de novo a contar, os europeus vão a pouco e pouco dando por isso e alguns assustam-se. Com menos razão do que julgam ter.

Há, de facto, hoje mais gente sentada à mesa dos crescidos. China, Índia, Brasil e Rússia (apesar de esta continuar a ser, como Helmut Schmidt dizia da URSS, o Alto Volta com bombas atómicas) vieram juntar-se aos Estados Unidos, ao Canadá, ao Japão, à Coreia do Sul, à União Europeia. E embriões de novas potências crescem a olhos vistos na Ásia e na América Latina. Nada tornará a ser exactamente como era. Mas antes de começar a carpir a decadência relativa do Ocidente convém lembrar duas coisas. A primeira é que, desde o seu berço, apreensões de decadência fazem parte integrante da civilização ocidental. Do grego Hesíodo a Cervantes, a Milton, a Spengler já no século XX, reflexões sobre declínio iminente atormentaram sempre a consciência europeia e ajudaram-na a ir triunfando de adversidades. A segunda é que, por impressionantes que sejam as taxas de crescimento económico das potências emergentes, uma nação (e também o conjunto peculiar de nações que é a União Europeia) é feita de muitas partes e o caminho por andar da China ou da Rússia (ou mesmo de democracias como a Índia e o Brasil) para chegar a níveis de poder e legitimidade comparáveis aos da Europa é tão longo ainda que não vejo razões para alarme.

Não é que os europeus sejam um exemplo moral. Deixaram de se preparar para a guerra com terceiros não por virtude mas porque os Estados Unidos os defendiam da União Soviética - e para guerras entre si porque a Guerra Fria os proibia de as travarem. Mas mais de meio século de paz forçada criou hábitos de cooperação tão rentáveis que foram dando o tom a outros lugares. O mundo deixou de ser eurocêntrico mas, do fato escuro dos ministros chineses à apologia do estado de direito nas Constituições de lugares bizarros, passou a ser - ou a querer parecer que é - euromórfico. Já não é mau.

jpc@ias.edu

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010