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Expresso

O mundo dos outros

O bafo do urso

Um polaco, um encanto; dois polacos, uma briga; três polacos, a questão polaca, dizia Voltaire. Nos dias que correm, outros europeus, com alemães e franceses à cabeça, irritam-se porque a Polónia trava a conclusão de novo acordo União Europeia-Rússia até que a Rússia dê satisfação a queixas que a Polónia tem dela. Na base deste desaguisado intra-europeu há um grande mal-entendido: a Polónia e os outros recém-vindos da Europa Central quiseram ser membros da União Europeia (e, claro está, também da NATO) com o fito de lá encontrarem ajuda para se defenderem da Rússia - enquanto os grandes da velha Europa acham que os novos devem estar agradecidos por os terem deixado entrar no clube e não se armarem em desmancha-prazeres nos arranjos da Rússia com a União.

Desde de De Gaulle, os franceses cultivam a ilusão de encontrar na Rússia (o general nunca dizia "União Soviética") contrapeso da influência americana que os incomoda. Chirac capricha em convidar Putin para cimeiras que, no tempo de Schroeder, incluíam também a Alemanha (e às vezes Zapatero). Schroeder e Putin, que eram unha com carne, decidiram fazer correr um "pipeline" pelo fundo do Báltico que levará gás à Alemanha evitando a Polónia. Com isso, a confiança de Varsóvia em Berlim que já não era muita, levou um grande e justificado rombo - e os Estados Bálticos ficaram igualmente muito inquietos. Quando, humilhada pela perda da Guerra Fria e inchada por riqueza em gás e petróleo, a vontade autoritária da Rússia se acentua, o estado de direito se desvanece, chegando-se ao assassínio de dissidentes, as violações dos direitos do homem se acumulam, as provocações a vizinhos fracos se repetem, ver a Alemanha, em vez de se alinhar comos seus novos parceiros europeus, preferir entender-se com Moscovo nas costas deles, lembra aos recém-vindos as passagens mais negras das suas histórias - e, sobretudo no século XX, as suas histórias estão cheias de passagens negras. Angela Merkel trata Putin com mais distância e exigência do que o seu predecessor mas o "pipeline" do fundo do Báltico será para ficar. A propensão alemã de recuar quase sempre perante os russos, personificada dantes pelo liberal Hans-Dietrich Genscher, não se desfez com a queda do Muro de Berlim, sobretudo entre os sociais-democratas, e Merkel governa em coligação.

Os gémeos Kaczynski, Presidente e primeiro-ministro, são provincianos, beatos e botas de elástico, tomam medidas que muitos outros europeus e a oposição polaca consideram com razão desastrosas e dão retoques de farsa à imagem da Polónia, mas nisto das relações da União Europeia com a Rússia têm carradas de razão. É preciso ser firme com Moscovo: decente mas firme. Se não forem ouvidos, a Europa ficará menos forte e mais vulnerável. Estas coisas sabem-se em Varsóvia e Praga, Budapeste e Bratislava, Tallin, Vilnius e Riga, até em Estocolmo e Helsínquia porque lá, quando o grande urso de Leste respira fundo, sente-se-lhe o bafo no pescoço.