Siga-nos

Perfil

Expresso

O mundo dos outros

'Não se oferece o que não se tem'

Sabedoria alentejana que europeus e norte-americanos estão a aprender à sua custa no Kosovo. Em 1999, indignados com o tratamento dado por Milosevic à maioria albanesa dessa província sérvia, puseram a NATO a bombardear a Federação Jugoslava (nessa altura Sérvia e Montenegro) até que, setenta e oito dias depois, Belgrado aceitou retirar de lá tropa, polícia e administração. Convencidos de que eram donos do mundo por terem ganho a Guerra Fria, os ocidentais tinham montado a operação à revelia do Conselho de Segurança da ONU, mas a seguir à derrota jugoslava faltou-lhes nervo para agirem como vencedores militares à antiga e declararem o Kosovo independente. Convinha-lhes, apesar de tudo, guardar algum respeito pela ONU e foi o Conselho de Segurança quem legitimou a ocupação internacional que ainda hoje dura e quem, embora colocando o território sob administração das Nações Unidas, confirmou a soberania sérvia.

No fim de 1999, já com a NATO no terreno, limpeza étnica de sérvios por albaneses seguiu-se à limpeza étnica de albaneses por sérvios que provocara a intervenção da NATO. Passaram-se depois sete anos sem progresso económico, cívico ou político ao fim dos quais os Estados Unidos e os europeus entenderam que era preciso definir de vez o estatuto do Kosovo. Martti Ahtisaari, ex-Presidente da Finlândia, encarregado pelo secretário-geral da ONU de encontrar acordo entre Belgrado e Pristina, propôs independência sob supervisão internacional (na prática, da União Europeia), que Pristina aceita mas que Belgrado recusa por considerar o Kosovo parte integrante e inalienável da Sérvia. No espírito de 1999, americanos e europeus teriam imposto a proposta e tanto pior para Belgrado, mas esse espírito sumiu-se. Os ocidentais começam a perceber que em 1999 só por estar de rastos a Rússia tolerara a ofensiva militar contra a Jugoslávia (e que, mesmo de rastos, fora ela quem convencera Milosevic a ceder). Agora, rica em petróleo e gás, está emproadíssima e ressabiada por ter sido humilhada; entretanto, Belgrado mandou Milosevic para Haia (onde morreu) e a Sérvia é uma democracia a caminho da União Europeia. O Kremlin evoca com Belgrado o direito internacional e vetará qualquer resolução do Conselho de Segurança, onde é membro permanente, contra os interesses da Sérvia. Deixou também de levar a bem que a Rússia seja ignorada.

O problema não é simples. Albaneses do Kosovo querem a independência que lhes foi prometida mas há razões do lado sérvio que não a quer dar. Além disso, a intervenção da NATO de 1999 foi forçada por muita informação falsa: no Kosovo não se trava uma luta entre o bem e o mal.

Os ocidentais propuseram mais 120 dias de negociações que não deverão dar para se chegar a acordo viável. Mais tempo, Estados Unidos e Europa poderiam oferecer. A independência do Kosovo não podem – e se, num espasmo de insensatez, pretenderem fazê-lo já, sem acordo da Sérvia, abrirão zaragatas insanáveis nos Balcãs e no Cáucaso.

José Cutileiro